Magazine Luiza

quarta-feira, 28 de março de 2012

O jogo das vidas perdidas

O jogo das vidas perdidas  
"A vida das pessoas neste Brasil está banalizada. Mata-se por uma fechada no trânsito, por R$ 1, por discordar de algo, por tudo e por nada"


Coluna do Jornalista  Jaeci Carvalho no Jornal Estado de Minas 28/03/2012 

Quantas vidas, quantos jovens, quantas pessoas de bem ainda precisarão morrer neste país para que as autoridades tomem providência enérgica e acabem com as torcidas organizadas e os bandidos infiltrados nelas? É ultrajante assistirmos a cenas de vandalismo, assassinatos, depredação do patrimônio público, de forma estática, com pés e mãos amarrados. Futebol, que deveria ser lazer, emoção, paixão, virou praça de guerra, na qual uma torcida é inimiga mortal da outra. Onde um jovem que vai ao campo com a camisa do time rival é visto como ameaça a ser eliminada.

Que mundo é este em que estamos vivendo? Até quando magistrados, promotores, delegados, políticos vão ficar de braços cruzados, perdendo esta verdadeira guerra para os marginais? Se as autoridades têm medo, imaginem os pobres torcedores?
A vida das pessoas neste Brasil está banalizada. Mata-se por uma fechada no trânsito, por R$ 1, por discordar de algo, por tudo e por nada. Mata-se somente porque um torcedor escolheu o outro time para torcer, porque está com a camisa dele nas ruas, porque querem matar, tirar a vida. São bandidos, que deveriam estar atrás das grades e não num estádio de futebol. E as autoridades fecham os olhos, como têm fechado para as várias questões de segurança. É um país sem lei, sem vontade, sem amor aos filhos. O garoto sai de casa para ir ao futebol e não sabe se volta. Quantos pais, aflitos, sentem grande alívio quando veem que os filhos voltaram sãos e salvos?



Do jeito que a coisa vai, vou escrever aqui neste espaço o que jamais gostaria de fazer. Futebol ainda é o lazer mais barato para a população, mas com ingressos a R$ 5, R$ 10 ou mesmo a R$ 1, como definem alguns dirigentes, fica fácil o bandido frequentar o estádio. Se o preço for majorado, garanto que esses marginais não terão dinheiro para ir ao campo e as mortes dificilmente ocorrerão. Infelizmente, é a realidade. Já que a polícia e demais autoridades não dão segurança nem tomam providências, é a solução a curto prazo. A não ser que haja um movimento no país para acabar de vez com essas torcidas. Por que elas se sentem mais torcedoras do que os anônimos? Em que elas são mais úteis aos clubes?
Meu Deus, é vergonhoso ver tantas mortes sem que os culpados estejam atrás das grades; ver tantos pais e mães chorando de saudade do filho que saiu para ver uma partida de futebol e não mais voltou. Tenho certeza de que todos os torcedores de bem que integram tais organizadas – e eles existem – concordam comigo e vão votar pela extinção. Precisamos resgatar o amor à vida, ao ser humano, à dignidade, ao direito de ir e vir. Os caras chegam a marcar pontos de briga pela internet. É o fim do mundo. Em país sério, estariam na cadeia, mas aqui nada acontece. Vale lembrar que o momento menos ruim do nosso futebol nesse aspecto foi quando um promotor de São Paulo proibiu a reunião de torcidas nos estádios. A violência diminuiu quase 90%.

Era bonito quando víamos a coreografia das torcidas, nas décadas de 1970 e 1980. Elas entoavam cânticos, picavam papel, vaiavam, xingavam, sofriam, choravam, riam. Tudo dentro da normalidade, da lei, do respeito ao torcedor rival. Lembro-me muito bem de quando ia ao Maracanã – nosso subeditor Benjamin Abaliac, também criado no Rio, é dessa época –, sentávamos na torcida mista, cada um com a camisa do seu time, perdíamos ou ganhávamos e o máximo que ocorria era a gozação saudável. Hoje, além de ser impossível ver camisas rivais lado a lado, ainda há a polícia separando as torcidas, deixando enorme buraco entre elas nas arquibancadas, dando prova de fragilidade no combate a esse terror.

Que pena, gente! O único futebol pentacampeão do mundo é também campeão em violência, dentro e fora do campo. E é com essa violência toda, essas cenas aterrorizantes que transformam ruas em praças de guerra, que vamos fazer a Copa do Mundo de 2014. Ah, me esqueci: para a Copa, os governantes fazem acordo com bandidos e a cidade fica uma calmaria só. Depois do evento, os conflitos e as mortes voltam. Que vergonha de ser brasileiro!

Vídeo do Canal do Youtube Chute no Saco 100



Trecho da Tabelinha Juca Kfouri sobre a morte do torcedor.