Magazine Luiza

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Minhas 20 músicas preferidas - Bom gosto musical - Makely Ka

Minhas 20 músicas favoritas do

Makely Ka
 .



A outra cidade 
Uma Confábula 
Cavalo motor 
Mira 
Cerebro na cuba 
Soroco 
Cantango 
Autófago 
Efeito Continuo 
Não se meta 
Codigo aberto 
Solaris 
Fio Desencapado 
Famigerado 
Mesmo quando não 
Eu não
Da idade da terra
Letra de Música
Menina ilha dos olhos d`agua
Astronauta Neandertal

Makely Ka

Makely nasceu em Valença do Piauí no ano de 1975. Primeiro de cinco irmãos, mestiço de árabe, negro, índio e português, filho de mãe mineira e pai nordestino, com menos de três anos foi com a família para o interior de Minas Gerais, onde viveu até o início da adolescência. Na metalúrgica Barão de Cocais começou a se interessar pela música, ouvindo através do pai os aboios e as histórias de vaqueiros e aprendendo os primeiros acordes de violão com o tio. Foi através do tio materno que estabeleceu também os primeiros contatos com outras linguagens artísticas como a pintura, o desenho, a escultura e, principalmente, a literatura: filosofia e textos sagrados. Nietzsche, o Mahabarata, Freud, o Ptah-Hotep, Marx, a Bíblia. Nessa fase leu também muito quadrinho da gibiteca fabulosa do tio.

Seguiu para Belo Horizonte antes de completar os 15 anos para cursar Eletrônica Industrial no CEFET, antiga Escola Técnica. Na capital do estado começou a freqüentar o circuito alternativo, acompanhando os shows e eventos culturais da cidade. Começou a ler poesia e mergulhou de cabeça na Beat Generation. Nesse período descobriu também o prazer das viagens, aproveitando os finais de semana e feriados prolongados para conhecer as diversas regiões do estado, sempre de carona, no melhor estilo On the Road. Foi também a época da primeira Bienal de Poesia e dos primeiros grandes shows com o BH Rock Independente na Praça da Estação.

Terminou o curso técnico e foi fazer estágio na Cia. Vale do Rio Doce, onde trabalhou por quase dois anos na área de automação industrial e telecomunicações. Nesse período morou em Mariana e começou a freqüentar o Festival de Inverno da UFMG, que acontecia em Ouro Preto. Conhece o poeta marginal e performer Renato Negrão. Vem dessa época o interesse pelos movimentos de vanguarda do início do século XX. Dos poetas beats chega a Blake, Rimbaud e Lautréamont.

Saiu da Vale para prestar vestibular, iniciando um curso de Geologia e outro de Física, até optar pela Filosofia, ao mesmo tempo em que se aproxima do teatro e da performance. Realizou também nesse período vários vídeos experimentais e montou uma rádio livre que transmitia clandestinamente de um casarão histórico no centro de Ouro Preto. A abertura de um dos programas semanais era feita ritualísticamente com a leitura do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Nessa época era um discípulo aplicado dos concretos e ouvia muito punk rock e música eletro-acústica. Assiste a um show solo do compositor baiano  Tom Zé, na Casa da Ópera de Ouro Preto, que definiria sua opção artística dali em diante.

Durante o curso de filosofia aprofunda seu interesse pelo estudo de mitologia grega e desenvolve a pesquisa de Iniciação Científica “Da Grécia Arcaica ao Sertão Mineiro” através do CNPq, onde faz um estudo comparativo entre a obra de Homero e Guimarães Rosa. Começa a estudar grego antigo. Nesse mesmo período se  envolve com política estudantil e funda o Centro acadêmico do curso de Filosofia, realizando diversos saraus e incitando greves na Universidade Federal de Ouro Preto.

Em 2008 lança seu primeiro livro de poemas, “Objeto Livro”. O caráter inovador e iconoclasta do livro rende uma calorosa acolhida no meio cultural e as primeiras críticas na imprensa. Participa de diversos saraus e eventos culturais. No mesmo ano de lançamento de seu primeiro livro parte numa viagem pelo Norte e Nordeste do país. Leva na bagagem seu violão , duas dúzias de canções e quase nenhum dinheiro. Volta quase seis meses depois mais moreno e com saudades do Brasil. Depois dessa viagem decide fazer uma imersão na obra dos grandes intérpretes do Brasil e destrincha “Casa Grande e Senzala”, “Raízes do Brasil” e “Os Sertões”.

Pede transferência para a Universidade Federal de Minas Gerais e se muda novamente para Belo Horizonte. Na capital começa a trabalhar como assistente de direção do videoartista Chico de Paula, seu antigo professor nas oficinas dos Festivais de Inverno em Ouro Preto. Nessa época pensava em se tornar videoartista mas depois de um show do compositor Itamar Assumpção decide viver de música. Monta em seguida uma banda para executar suas canções e se apresenta em diversas cidades do interior do estado. O grupo, que chegou a ter 11 integrantes, entre eles o DJ e produtor musical  Lucas Miranda, mais conhecido como Osciloide, as percussionistas Alcione Oliveira e Daniela Ramos e a cantora Sílvia Gommes, alternava performances musicais e poéticas com grandes doses de improvisação e experimentalismo. Foi o período em que mergulhou no cubo-futurismo russo e incorporou o Ka ao seu nome em homenagem ao poeta Velimir Khlébnikov.

No bairro Paraíso, zona leste de Belo Horizonte, divide uma casa com outros artistas em início de carreira, entre eles o poeta Renato Negrão, o cineasta Sérgio Borges, o músico Kristoff Silva, a atriz Eva Queiróz e o performer Daniel Costa. O espaço se torna uma referência na cidade, virando palco de shows, performances, instalações e eventos por quase dois anos. Nesse período inicia uma parceria musical com a cantora Cristina Brasil e conhece o escritor e compositor Jorge Mautner e os poetas Chacal e Nicolas Behr.

Realiza em 1999 o “Tributo a Paulo Leminski” que conta com a presença dos poetas Alice Ruiz, Carlos e Afonso Ávila. Na ocasião conhece Estrela Leminski, que se tornaria sua parceira.

Conhece a cantora Maísa Moura com quem inicia uma longa e frutífera parceria musical. Ao seu lado parte em turnê pelo Nordeste, levando um disco demonstrativo na bagagem. O convívio desperta seu interesse pela Antropologia, que marcaria uma mudança radical na sua concepção artística no futuro.

Nesse período dá aulas de literatura e filosofia em cursos pré-vestibulares e coordena atividades culturais na Casa do Movimento Popular de Contagem. Apresenta ainda um programa semanal na Abóboras FM, rádio comunitária da região metropolitana de Belo Horizonte.

De volta a Belo Horizonte inicia as articulações para a realização do Reciclo Geral – Mostra de Composições Inéditas. O evento faz história e se torna um marco na trajetória recente da música mineira. Nesse mesmo ano inicia a parceria musical com os compositores Kristoff Silva e Pablo Castro, que resultariam na gravação do disco-manifesto “A Outra Cidade”. O disco é considerado pela crítica um dos melhores lançamentos do ano e frequentemente é citado como um dos trabalhos de referência da música produzida em Minas nos últimos tempos.

Nessa época o curso de filosofia já agonizava e o golpe de misericórdia foi uma turnê pelo interior de São Paulo, impossibilitando definitivamente a conciliação da carreira artística com as atividades acadêmicas. Decide definitivamente se tornar um não-especialista e estudar somente e tudo aquilo que o interessa.

Cria a Selo Editorial e publica mais de vinte livros de poemas, contos, ensaios e memórias de diversos escritores.

A cantora Alda Rezende grava e lança em 2001 suas primeiras canções no álbum “Samba Solto”. São três composições, inclusive a que dá nome ao disco. A partir daí seria gravado por outras dezenas de intérpretes como Titane, Noriko Yamamoto, Ná Ozzetti, Carol Saboya, Aline Calixto, Regina Spósito, Mariana Nunes, Leopoldina, Júlia Ribas, Elisa Paraíso, Flavia Enne, Ana Paula da Silva, Carol Ladeira, Dani Gurgel, Juliana Perdigão, Paula Santoro, Irene Bertachinni e Laura Lopes entre outras.

Publica em 2003 seu segundo livro de poemas, Ego Excêntrico, acompanhado do CD Poemas de Ouvido. O livro é lançado em Belo Horizonte durante três dias de debates, shows e apresentações. Nesse período já conta com diversos artigos e poemas publicados em jornais e revistas do país.

Assume nesse mesmo ano a direção musical da casa de shows Reciclo Asmare Cultural, onde realiza diversos projetos.

Lança em 2006 o álbum Danaide, ao lado da cantora Maisa Moura, somente com suas canções. Com o disco realizam uma série de shows em Curitiba, São Paulo, Salvador, Recife e Fortaleza. O álbum é reconhecido pelo público e pela crítica como um dos trabalhos mais originais da cena mineira.

Começa a ser requisitado por outros músicos e inicia parcerias com diversos compositores. Entre eles Chico Saraiva, Mário Sève, Flávio Henrique, André Mehmari,  Estrela Leminski, Natan Marques, Marku Ribas, Ná Ozzetti, Pedro Carneiro, Chico Amaral e Benji Kaplan entre outros.

Ainda em 2006, em enquete realizada pelo jornal Estado de Minas é eleito o letrista mais representativo da sua geração.

Ao lado do parceiro Bruno Brum começa a editar um periódico de poesia, a Revista de Autofagia, que trás referência explícita à publicação modernista editada na década de 20 por Oswald de Andrade.

Faz a direção artística e a curadoria do Expresso Melodia, um projeto da Fundação Clóvis Salgado que circula pelo interior do estado de Minas realizando shows num caminhão-palco. Percorre durante seis meses mais de quarenta cidades.

Começa a se envolver com as discussões sobre políticas públicas para a cultura e é eleito representante do estado para as Câmaras Setoriais do Ministério da Cultura no início da gestão de Gilberto Gil. Nesse mesmo ano de 2005 participa da fundação do Fórum Nacional da Música com representantes de 17 estados brasileiros.

Funda em 2007 a COMUM – Cooperativa da Música de Minas e atua como presidente por quatro anos. Viaja o país inteiro levando o germe do cooperativismo e da contra-indústria, ajudando a implantar cooperativas na Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte, Piauí, Pará, Acre e Espírito Santo.

Primeira viagem à Europa nesse mesmo ano, quando conhece as casas de Fado em Lisboa e as tabernas de Flamenco em Sevilha. Entra em contato com os galegos, no norte da Espanha, que se tornariam parceiros e alimentariam seu interesse pelos trovadores medievais.

Lança Autófago, seu primeiro disco solo produzido pelo parceiro Renato Villaça em 2008 e realiza shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Fortaleza e excursiona pela primeira vez por Portugal. O disco com pegada roqueira, ritmos nordestinos e discurso afiado traz trechos de depoimentos de Glauber Rocha, Sub-comandante Marcos e Maiakóvski, entre outros.

Participa da criação do Fórum da Música de Minas e atua como articulador político e gestor da ação internacional. Participa de atividades em Nova York, Copenhague, Sevilha, Pontevedra, Bogotá, Buenos Aires e Barcelona entre outras cidades.

Em 2011 desenvolve um aplicativo para móbiles e realiza uma turnê nacional de lançamento com shows em Salvador, Maceió, Natal, Recife, Rio Branco, Cuiabá, São Paulo e Rio de Janeiro. Faz shows também na Cidade do México, além de Copenhague e Lisboa.

Em 2012 realiza a expedição “Cavalo Motor pelo Grande Sertão”, quando percorre de bicicleta os caminhos do personagem Riobaldo Tatarana no romance “Grande Sertão: Veredas”, do escritor João Guimarães Rosa, para registrar em gravações de áudio, vídeo e fotos as paisagens sonoras e visuais que vão integrar o disco e o show Cavalo Motor. O percurso compreendeu 1.680 Km e pôde ser acompanhado em tempo real através de ferramentas de geolocalização espacial no seu site.

Neste mesmo ano é eleito representante do setor musical para o Conselho Estadual de Cultura do Estado Minas Gerais.

É também um dos selecionados para se apresentar na edição 2012 da WOMEX – World Music Expo, a maior feira de música independente do mundo, realizada em Tessalônica na Grécia.

Em 2013 recebe o patrocínio da Natura Musical para finalizar seu novo disco e realizar uma série de shows de lançamento. Realiza também nesse ano uma turnê com diversos concertos na  Lituânia (Vilnius e Kaunas) e Grécia (Ilha de Creta), com grande sucesso de público e da crítica. Inaugura uma exposição com fotos, mapas e vídeos no Museu Casa Guimarães Rosa em Cordisburgo que está aberta para visitação.


Prepara um disco de poesia sonora e um livro infantil a serem lançados no próximo ano.

Entrevista para o jornalista Pedro Alexandre Sanches


Quase dá vontade de pensar no “Zé do Caroço” de Leci Brandão, “está nascendo um novo líder/ no Morro do Pau da Bandeira”. Mas estamos aqui mais no território dos filhotes de Gilberto Gil – do Gil tropicalista de quatro décadas atrás e do Gil ministro do Min(im)istério da Cultura de oito ou menos anos atrás.
Agora mesmo, enquanto a gente pisca o olho, está nascendo um novo tipo de artista da música, em vários cantos do Brasil. A velha indústria desmoronou, um disco não vale mais um tostão etc. e tal. O mineiro nascido no Piauí Makely Ka é um entre dezenas, centenas, se não milhares e milhões, de zés do caroço da música brasileira dos anos 2000. Eles crescem em muitos morros do pau da bandeira, e talvez você e eu nem tenhamos os notado ainda, principalmente se estivermos ocupados demais resmungando de “como anda parada a música brasileira” ou de que “já não se fazem mais chicos e caetanos como antigamente”.
Você terá de acreditar em mim para continuar neste texto e acompanhar a entrevista relativamente longa que se segue. Mesmo que nunca tenha ouvido falar de Makely Ka. Mesmo que não entenda por que um paulistano nascido no Paraná vai parar no Acre entrevistando um mineiro que nasceu no Piauí, para que ele fale de sua música (que música?) e de sua atuação política (hein?, atuação política?).
Lado a lado com a Cooperativa da Música do Acre, Makely é um dos organizadores do I Seminário Nacional de Cooperativismo Musical, que acontece aqui em Rio Branco. Presidente da Cooperativa de Música de Minas Gerais, ajuda a reunir zés do caroço como ele, que antes viviam invisíveis em seus respectivos paus de bandeira. A prática (não se trata uma teoria), em tudo oposta às das antigas gravadoras de discos e editoras de “direitos”, aposta num desenvolvimento colaborativo – e não competitivo – de cada um de seus mais de 300 associados. Makely afirma, alto e bom som, que deve muito do despertar disso que poderíamos chamar de artista-cidadão à semeadura inaugurada por Gilberto Gil à frente do MinC.
Evidentemente, não estamos aqui para falar de política (estamos?). Eu conhecia os discos de Makely e seus parceiros em Minas, mas os ouvia talvez com aquela cara tipicamente paulista de muxoxo, meio de bode com o que me parecia, à distância, mais alguma safra indigesta de MPB universitária (como se MPB já não fosse universitária desde o berço…).
Aqui, além de debates e discussões que não param o dia inteiro, pude assistir a um show do artista no lindo Cine Teatro Recreio. Além do discurso literário-musical espirituoso (e da militância político-musical, que eu também conhecia de longe), me vi transportado – pelos violões (e viola caipira), pelas sonoridades mouras, africanas e nordestinas, por certas letras que cutucam um diálogo com os muitos Brasis que o Brazil com Z não conhece – a uma das escolas mais vigorosas de música brasileira e mineira.
Não, não estou falando do clube da esquina, mas sim de um saber musical que, por falta de nome, batizo por um instante de escola Bosco-Blanc, escola mineira-carioca dentro da qual cabe bem mais que um país. Os espectros do João Bosco e do Aldir Blanc, principalmente daquele samba-MPB popularíssimo das décadas de 1970 e 1980, habitaram nessa noite o teatro de madeira da capital do estado natal de João Donato.
No show, houve rap, e ciranda, e martelo, e aboio, e (sim) MPB, e moda de viola, tudo na cadência bonita dos (não-)sambas dos zés do caroço. E houve “Código Aberto” (o título já diz muito), que integra e atualiza o “tudo é perigoso/ tudo é divino, maravilhoso” do ex-ministro tropicalista em “sei que viver é perigoso/ nunca houve uma época segura/ o perigo também é prazeroso”.
Mais uma vez, tenho a pedir, qual um jornalista-político, seu voto de confiança para estar atento e forte para as palavras e histórias que vêm abaixo – até sobre uma história pouco popular na “grande” mídia, sobre um tal manifesto do cantor e compositor Sérgio Ricardo (aquele que quebrou o violão em 1967) que Chico Buarque a princípio subscreveu e depois voltou a trás, supostamente a “pedido” da irmã hoje chefe do minimistério da (contra)cultura, Ana de Hollanda.
Ainda que nunca tenha ouvido falar de Makely Ka, aí abaixo vai um resumo de assuntos presentes, essenciais para todos nós que gostamos de música etc., e a história dos melhores anos de nossas vidas, estes nos quais os brasileiros temos aprendido a nos portar como adultos e a gostar de nós mesmos como somos, não como outros (não) gostariam que nós (não) fôssemos. A nova música brasileira está viva e pujante no coreto da praça, mas é preciso ter olhos e ouvidos bem abertos para não ficar apenas esperando ela passar, carolina ou lindoneia, pela janela imóvel.
Pedro Alexandre Sanches: De onde vem seu nome? É verdadeiro?
Makely Ka: É, meus pais criaram os nomes. Eu sou o mais velho, Makely, aí vêm Makeline, Makênia, Maken e Makeber. Quando os irmãos nasciam, eu e minha irmã fazíamos as listas e íamos pro hospital pra minha mãe escolher. Eles falam que foi um filme que eles viram, mas dizem que isso é uma mania de famílias nordestinas. O Ka eu incorporei, é uma homenagem a um poeta russo, Klebnikov, que tem um livro chamado Ka, que inspirou os futuristas.
PAS: Qual é o sobrenome verdadeiro?
MK: É Oliveira Soares Gomes.
PAS: Você nasceu no Piauí?
MK: Nasci em Valência do Piauí, no sudeste do estado, a 300 quilômetros de Teresina. Meu pai é do Piauí, foi trabalhar em Brasília, como operário. Foi transferido pra Belo Horizonte, e de lá, visitando o interior do estado, conheceu a minha mãe, que é de Barão de Cocais, próximo ao Parque do Caraça. Casaram e foram pro Piauí, depois voltaram, e eu fui criado a partir dos 3 anos em Minas. Depois descobri que eles voltaram pro Piauí porque minha mãe se casou grávida, e minha avó materna, beata, não podia saber. Eles ficaram escondidos numa fazenda, pra anunciar que eu tinha nascido três meses depois, pra dar o tempo.
Minha irmã foi registrada um mês depois, porque ela tem uma diferença de 11 meses de mim, não daria tempo. Essa fraude durou até recentemente (risos).
PAS: Você sabia seu aniversário errado?
MK: A vida inteira era errado. Com 20 e poucos anos a gente descobriu. Minha irmã fez o mapa astral e não batia nada, ela falou: tem alguma coisa errada.
PAS: Sua avó está viva? O que ela achou o que ao saber?
MK: Está viva. Ela não sabe ainda (risos).
PAS: Ela não deve ler FAROFAFÁ
MK: (Risos) Tenho dois aniversários. O real é 26 de junho – gosto muito dessa data, é a data do Gil, e descobri que ele fez uma música no dia que eu nasci. E tem a outra data, que é 26 de setembro, comemoro as duas.
PAS: Sobre etnia, vejo que você é misturado, mas não sei de quê.
MK: É, tem um pouco de árabe, negro, índio e português. Quando vou pra Europa, na Espanha, eles me consideram árabe. Aliás, a única vez que senti algum preconceito foi lá. Eu estava no metrô em Madri, com uma mochila pesada, e tinha um banco com um árabe caracterizado, e ninguém sentava com ele. Eu estava pesado, fui sentar do lado, ele fez um gesto de gratidão, e todo mundo ficou me olhando, todo mundo se afastou, ninguém chegou perto. Eu nunca tinha sentido isso.
PAS: Como e por que a música entra na jogada?
MK: A família do meu pai é uma família de vaqueiros, que têm uma tradição de aboio. Tenho essa relação muito forte com a música nordestina e o aboio por essa tradição familiar. E da parte da minha mãe tenho um tio que tinha uma escolinha de violão, e eu aprendi com ele. A gente tinha uma formação de música brasileira, a gente aprendia a tocar as músicas, mas no colégio, nos anos 1980, não podia tocar música brasileira. Era considerado cafona, brega. Mas eram as músicas que a gente aprendia, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque.
PAS: Levava vaia se tocava?
MK: A gente nem tocava, já tinha uma pré-censura. Na adolescência, eu ouvia rock’n'roll, camisa preta, teve aquela negação.
PAS: Você foi pego ali, no manguebit? Qual é sua idade?
MK: Eu tenho 36, ou 35 pela outra data (risos). O manguebit possibilitou um desenvolvimento de carreira de novo, fazendo música brasileira, sem estar ligado a um nicho tão específico.
PAS: O show que vi ontem (quinta-feira) é brasilidades de todos os lados… Mas você está dizendo que já foi roqueiro de camisa preta. Você teve que fazer algum tipo de ruptura?
MK: É, no início dos anos 1990, aquele momento do grunge, a gente ainda estava naquela rebordosa do rock Brasil, e e a música brasileira ainda não estava tão liberada. Ela nunca deixou de ter prestígio, mas foi perdendo público, perdendo espaço na imprensa. Nesse sentido acho que o movimento mangue recupera.
PAS: Mas aí a axé music também, por outro viés.
MK: Também, a axé music, como diz Jorge Mautner, é uma tradução do tropicalismo, que ela traz pra grande massa. A importância do manguebit é que ele traz a crítica, traz o intelectual de novo pra pensar a música brasileira dentro dessa perspectiva. Teve um período que a gente ficou sem essa crítica, né? É muito significativo o aval tanto do Ariano Suassuna quanto do Hermano Vianna, que são talvez extremos da coisa da brasilidade, um que recusa tudo e o outro que considera tudo.
PAS: E você foi para a formação musical tradicional?
MK: Não, eu nunca estudei música, sou analfabeto musical Fiz faculdade de filosofia, a música foi uma relação que veio da poesia. Comecei em 1998, lançando um livro de poesias, depois comecei a musicar uns textos e a fazer uns espetáculos de poemas falados, com uma cantora que me acompanhava, Sílvia Gomes. Entrei nesse universo da música mesmo depois que estudei em Ouro Preto, fui pra Belo Horizonte e comecei a atuar. A gente morava numa casa que dividia entre vários artistas, atores, cineastas. E teve um momento que a gente considera inaugural dessa nossa cena mineira, belo-horizontina, que foi o Reciclo Geral. Em 2002 a gente montou uma mostra de composições inéditas, que reuniu mais de 70 músicos, só com novos compositores apresentando só músicas inéditas. A gente fez no espaço dos catadores de papel, o Reciclo Geral era uma forma de incorporar a noção de reciclagem que eles estavam propondo. Tinham acabado de inaugurar esse espaço, faziam o cenário e a gente propunha uma nova música reciclada, devolvendo tudo que a gente tinha ouvido.
PAS: Havia uma comunicação real com os catadores? Em geral classe média faz música, mas não convive com o pessoal que faz rap, por exemplo.
MK: Havia, porque o espaço foi criado por eles. A gente fazia oficinas de música com eles, e eles davam oficina de reciclagem de material pra gente. Era muito interessante.
PAS: Isso me lembra esse seu rap que você pontua no show, “você me diz que é artista/ artista você não é”…
MK: Isso foi uma brincadeira com a minha avó, de ela sempre falar: “Mas, meu filho, você já arrumou emprego?”. E eu: “Mas, vó, eu trabalho com música”.
PAS: É a mesma avó que não pode saber que sua mãe casou grávida?
MK: É (risos). “Mas vó, eu trabalho com música.” “Mas eu nunca te vi na televisão, meu filho.” “Mas vó, a gente aparece na TV Cultura, na TV Minas, a senhora só assiste Globo e SBT, a gente não vai aparecer no programa do Faustão nem do Ratinho.” “Meu filho, você fica fazendo isso, mas arruma um cartão pra bater.” Enfim, aquele foi nosso momento inaugural, também porque a gente começou a se posicionar como artista num estado que tem esse peso quase esmagador do clube da esquina. Naquele momento não tinha interlocução nenhuma com eles. A geração do pop também não tinha essa interlocução. Hoje, talvez a gente tenha mais interlocução com o clube que com a geração Skank, Jota Quest e Pato Fu. Com o clube a gente teve interlocução, também porque em 2003 eu e mais dois compositores, Kristoff Silva e Pablo Castro, lançamos um disco-manifesto claramente inspirado no clube da esquina, mas também negando ele um pouco, como uma forma de diálogo de geração.
PAS: Vocês classificaram como um disco-manifesto mesmo? Atualmente todo mundo foge desse rótulo…
MK: É, porque a gente reuniu aquela geração, era programático.
PAS: Qual era o manifesto, resumindo?
MK: A gente propunha “A Outra Cidade”, porque Belo Horizonte sempre era a cidade que estava fora do circuito, que não tem uma tradição reconhecida, tanto que todo mundo foi pra fora pra ser reconhecido lá em Minas.
A gente estava falando de outra cidade, que estava ali e não era cartão postal. A gente fala da rodoviária, dos camelôs, de uma outra relação com a cidade. Belo Horizonte não tem isso que o Rio e São Paulo têm, de os músicos gostarem de falar da cidade. A gente falou: não, a gente tem uma cidade, a gente vive aqui.
PAS: De longe, de São Paulo, e sem entender muito nem me interessar muito, me pareceu mais uma turma de MPB tradicional surgindo. Começo a achar que estava enganado…
MK: Eu vinha dessa formação com a poesia, com a música nordestina, e vinha sendo muito solicitado pra fazer letras. Tem muito pouco letrista atuando. O Kristoff é um cara que tem formação acadêmica e é uma referência pra todos os músicos, tem um trabalho de excelência como cantor, harmonizador, instrumentista, professor da UFMG. E o Pablo é um cara que vinha da experiência da noite, tinha uma banda cover dos Beatles, mas tocava todo o repertório do clube da esquina, João Bosco, Edu Lobo. Ele falava da música 3 do lado B do disco do Beto Guedes de 1974, nem os caras lembram mais o que é isso. Eram formações muito diferentes, e a gente juntou e chamou todo mundo que a gente conhecia naquele momento pra tocar no disco. Tem faixas que têm a Orquestra Mineira de Rock, grupos de percussão, quarteto de cordas, cravo… Tinha essa diversidade, mas basicamente a proposta de trabalhar a harmonia, a escola harmônica mineira, dentro dessa concepção nova que a gente vinha trazendo.
PAS: Esse foi o seu primeiro disco?
MK: Foi, mas eu já vinha fazendo um trabalho com a Maísa Moura, a gente lançou um disco juntos, Danaide, em 2006.

Quando fiz Autófago, em 2008, fiz um disco com uma pegada mais rock’n'roll. Ele veio no mesmo ano que o Kristoff também lançou o disco dele, com cinco músicas minhas. A gente tem um diálogo, uma espécie de competição saudável, eu não podia lançar um disco de MPB no mesmo ano que o Kris estava lançando um disco. Ele canta e toca muito melhor do que eu. E aí eu fiz um disco mais político, mais barulhento. Não que fosse um disco pensado a partir do disco dele, mas depois fui perceber que foi uma forma de distanciar. Enquanto ele fazia um disco com quarteto de cordas, eu fiz um disco com duas guitarras sujas, barulhento, com palavrão, e uma pegada política mais forte. Minas é um estado muito conservador, é uma forma de provocar. “A Outra Cidade”, que gravei no Autófago, tem um texto chamado “Linha Branca”, que é uma crítica bem-humorada até, a uma certa cristalização política no estado de Minas. Tive problemas com ela, de tocar no jornalismo da TV Minas, ao vivo, e oferecer ela pro governador.
PAS: Ao governador Aécio Neves? E o que aconteceu?
MK: Ao Aécio. Aconteceu que sou persona non grata no jornalismo da TV Minnas, a TV de cultura do estado. Até faço outros programas, mas esse não, por eles acharem que foi uma falta de respeito… São essas coisas que incomodam, mas é a nossa função também, né? (Recita o texto, meio em tempo rápido de rap.) “A cidade não explode, mas não se contém/ ela cada dia tem mais carros, sem metrô nem trem/ esse trânsito catravo entra em colapso/ um espaço entre as carcaças convida ao esbarro/ se eu não morro eu me mato de nervo ou cansaço/ mas não ando a pé aqui no sol, no céu, mormaço/ eu não reconheço, eu não tenho salvo-conduto e o governador planeja um novo viaduto/ quem tem grana sai da selva/ a salvo em condomínio/ quem não tem tem de render o seu salário mínimo/ eu me pico, eu me capo, eu me regenero e uma puta não é páreo pro meu aparelho/ eu me culpo, mas escapo de papo Lutero se chuto a santa/ taco fogo em monastério/ queimo o sacripanta, abro conta no estrangeiro/ e quem é contra eu mando pro chuveiro/ eu sou o único que presta no país inteiro/ esse é o novo código de conduta do Brasil real de um neto filha da puta do homem cordial”.
PAS: E você dedicou ao governador?
MK: É. Aconteceu uma situação curiosa, eu fui tocar em São João del Rey, na terra do governador. A gente ficou com receio, mas fizemos a música. Quando estava no camarim, chegou um senhor mais velho, sério, e falou: “Eu não concordo com aquele texto”. A gente ali no berço, todo mundo ficou atento, nossa, e agora, o que vai acontecer? “Tudo bem, tem direito de discordar, mas por que você discorda?” “Porque o avô também era filha da puta”, era um inimigo político deles. Todo mundo riu.
PAS: É fato que no governo Aécio existiu um sufocamento, como também em São Paulo, em que ninguém pode se expressar na “grande” mídia fora dos domínios do PSDB?
MK: É, tem, é quase uma paranoia. Independente do governo, ele vai exercer o poder de autoridade. É a função do artista, da sociedade civil como um todo, se manifestar.
PAS: É uma questão importante, porque nos dois estados, Minas e São Paulo, o PSDB se coloca como o poder civilizado, que não reprime, não censura quem não está alinhado com as convicções deles. Mas é mentira, um coronelismo supostamente “civilzado”.
MK: É, isso é uma questão muito combatida. Por exemplo, a gente não tem uma força jornalística que se contraponha. São Paulo tem projeção nacional, se a Folha de S.Paulo coloca uma coisa todo mundo vem e bate. Se O Estado de Minas coloca uma coisa, ninguém bate.
PAS: Mas a Folha nunca coloca nada grave que seja contra o governo do próprio estado.
MK: É, esse posicionamento não é saudável. Existe esse tensionamento. A gente, por exemplo, como Fórum de Música de Minas, tem uma parceria com o governo do estado, o que não impede de artisticamente a gente se manifestar e ter um posicionamento político contrário. A gente está discutindo agora a formação do Conselho Estadual de Cultura, e ali a gente tem uma posição contrária à da secretaria, e isso é saudável. A gente está em todos os espaços, então não tem essa conversa de que a gente está fazendo crítica irresponsável. Eu faço a crítica na música, mas estou lá na audiência pública, na mesa, debatendo essa crítica.

Brasil, anos 2000, parte 2: do sonar ao aboio ao sonar ao aboio ao sonar ao…

Se na primeira parte deste trabalho partimos da música de Makely Ka e chegamos a política, façamos agora o caminho oposto. A trajetória que ele aponta, assim como sua ciranda “Roda da Fortuna”, é circular, pendular – da música à política, dessa de volta à música, à política, à música, à política.
(E, a propósito, “Roda da Fortuna” está disponível, ao lado de outras canções, para audição no aplicativo para celulares que Makely lançou – ali, ele vai costruindo o disco pouco a pouco, faixa por faixa, a começar pela capa, que existe antes do disco, mas pode mudar a qualquer momento.)
PAS: Já começamos a misturar os assuntos, e eu queria isso mesmo. Você é artista, mas ao mesmo tempo é presidente da Cooperativa da Música de Minas (Comum). Por que fazer as duas ao mesmo tempo?
MK: Esse movimento de organização é muito recente, não tem dez anos que a música começa a se organizar efetivamente em rede. A gestão do Gilberto Gil inaugura o Ministério da Cultura (MinC), inaugura a interlocução e de certa forma imanta o Brasil, aquela coisa do ímã que todas as setas apontam pra aquela direção. Acho muito salutar a definição do Gil, no programa dele, o discurso dos pontos massageados, do do-in antropológico…
PAS: Na época muita gente zombou…
MK: Sim, e é revolucionário. Um dos principais responsáveis por aquele texto é o Antônio Risério, um antropólogo que acompanho há muito tempo e que, não por acaso, é também um dos ideólogos do tropicalismo. Por isso considero a gestão do Gil uma continuidade do tropicalismo. Ali é o braço político que faltou ao movimento naquele momento. A política sempre esteve dentro do conteúdo programático do tropicalismo, mas eles não tinham experiência, nem acesso e nem saco naquele momento pra desenvolver. Pra mim é lógico, e é uma continuidade natural o Gil ter entrado. O programa do Gil não era do PT, eu estudei os programas de todos os presidenciáveis. Não tinha nada parecido com aquilo, acho que nem o próprio Gil tinha muita dimensão do que ele ia fazer. Mas ele reuniu algumas pessoas, como Risério, Jorge Mautner, Waly Salomão, Rogério Duarte, pessoas fundamentais na gestação do tropcalismo pra o ministério. E chamou a juventude, a galera da cultura digital, pra entrar, pra cair pra dentro.
PAS: Não deve ser fácil ser do clã Buarque de Hollanda e ter que assumir essa sucessão…
MK: Não, não. A Ana, se tivesse assumido esse ministério em 2003, não ia ter problema nenhum, ia ser louvada inclusive. É porque o Gil colocou a coisa num patamar muito alto. Ele vem com conceitos muito avançados, e dentro de um processo que já começou 40 anos atrás. Eu me senti muito instigado quando ele assumiu. Sempre tive esse interesse, mas nunca tinha me envolvido muito em grêmio, em política estudantil, nunca me filiei a nenhum partido. Chegamos a puxar greves, mas sempre individualmente. Mas quando quando eles fizeram o chamamento pra gente ir participar das Câmaras Setoriais do MinC, eu fui. Foi em 2005. Foi o primeiro momento que a gente se encontrou em Brasília, 17 estados, pra discutir políticas públicas.
PAS: E você era um cara que fazia música em Minas e foi porque quis?
MK: Fui porque a gente fez uma reunião com alguns músicos, e eu e o Weber Lopes fomos indicados pra ir representar o Fórum. A gente já estava acompanhando as discussões, no Rio e em São Paulo tinham começado um ano antes. O MinC passou em todos os estados convocando a organização dos músicos, e eu fui pra Brasília e conheci um universo que… Encontrei gente do Pará, do Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul. Os nossos problemas eram muito parecidos, e a gente não se conhecia. E a gente fazia basicamente a mesma coisa. É ali que surge a ideia de autoprodutor. A gente cria, produz, divulga, às vezes a gente mesmo compra a nossa própria música, então a gente tem que se juntar. Isso começou a gerar os fóruns, as cooperativas, as associações, que foram surgindo ali naquele momento. E foram surgindo outras ações paralelas, que foram engrossando o caldo. O Fora do Eixo é uma ação que a gente acompanhou desde o início, eu levei o Pablo Capilé pra BH em 2006 ou 2007, mas já tinha feito uma entrevista com ele por messenger pra uma revista que a gente publica, a Revista de Autofagia, um ou dois anos antes, quando o Pena Schmidt e o Edson Natale me falaram de uma ação em Cuiabá que tinha impressionado muito eles.
PAS: Você acha que o movimento deles, assim como o de vocês, é filhote do MinC de Gilberto Gil?
MK: Sem dúvida, começa nesse processo, ou pelo menos coincide. Mas não é uma coincidência gratuita. Nunca a gente tinha imaginado uma construção coletiva de um Plano Nacional da Cultura, pensar os próximos dez anos de investimentos pra área. Eu gosto de fazer isto em tempo de eleição: pego um táxi, o taxista tem opinião sobre todas as áreas e todas as propostas dos governos, pra saúde, educação, saneamento. De cultura, ninguém tem opinião nenhuma. Porque a indústria acostumou a gente a entender a cultura como um investimento privado. Tem artistas, inclusive, que acham ainda hoje absurdo ter investimento em cultura com dinheiro público.
PAS: Jornalistas denunciam como se fosse crime.
MK: Eu falo: se fosse construir um hospital você seria contra? Se fosse pra fazer um tratamento de esgoto seria contra? Não. Por que se for construir um teatro é contra? Por que investir numa ação na área de cultura é errado, se isso é um direito constitucional, e se é dever do estado cuidar disso?
PAS: É como plano de saúde que não quer cobrir atendimento psicológico, como se fosse frufru.
MK: Exatamente, tanto que isso se reflete nas secretarias de cultura da grande e esmagadora maioria de prefeituras no país inteiro, não só nos interiores, nas capitais também. É um cargo de perfumaria.
PAS: Em São Paulo, temos agora Andrea Matarazzo, que é secretário estadual de Cultura, mas não se sabe de uma grande ligação dele com a área.
MK: Fazem política de eventos, que não é política de cultura – quando não é política de balcão mesmo. Se for de eventos, menos mal, porque tem um calendário, mas não é uma política efetiva. Antes do Gil, a gente tinha uma política de balcão, totalmente entranhada. A recusa da Ancinav (agência reguladora proposta no início do primeiro governo Lula e amplamente rejeitada como “dirigista” e “stalinista”) reflete isso, o discurso do manifesto do Luiz Carlos Barreto era exatamente este: vai pulvrizar nosso dinheiro. Meu amigo, vai pulverizar, sim, vocês não estão sozinhos, o Rio de Janeiro não está sozinho. O resto país quer fazer, está fazendo, e tem o direito de acessar esses recursos
PAS: Quando e como surge a Cooperativa da Música de Minas?
MK: Foi fundada em 2007. Vejo como um desdobramento lá do Reciclo, quando a gente se juntou, fez uma ação cooperativa sem saber que estava fazendo. A cooperativa não tem nenhum tipo de restrição, mas, por contiguidade, o tipo de gente que vai entrando tem esse perfil nosso: trabalha ou quer viver profissionalmente da música, muitos já têm uma carreira, um disco, dois discos, têm uma perspectiva de ampliar e criar circuito. A cooperativa foi uma das principais fomentadoras do programa Música Minas, que é ação do Fórum da Música, a gente conseguiu mobilizar um edital de passagens pra mandar músicos pro mundo todo. Nesses dois anos de programa a gente já mandou mais de cem artistas pra todos os continentes. A cooperativa hoje tem 300 e poucos filiados.
PAS: Todos músicos?
MK: Não, músicos, jornalistas, designers, técnicos de som, roadies, todos da cadeia da música. Pra um jornalista ser filiado, por exemplo, ele tem que apresentar um clipping de que faz um trabalho de crítica na área de música. Seria quase um suicídio querer fazer só com músicos, não funciona. A maior parte dos que trabalham hoje efetivamente do que a gente chama de núcleo durável são produtores, jornalistas e pesquisadores. Hoje na diretoria somos só dois músicos. É difícil conciliar.
PAS: Eu queria chegar nisso. Você concilia as duas atividades, ambas intensamente. Muitos artistas dizem “não posso, preciso cuidar da minha arte”…
MK: Eu tento conciliar. Por exemplo, a gente ajudou a organizar o evento aqui, e eu não me furtei a apresentar meu show também, porque é o trabalho que eu faço. Fiz uma turnê pelo Nordeste em maio, e comprei uma passagem da Giro TAM, um programa da TAM que viabiliza você comprar uma passagem até o destino final e pingar em algumas cidades, pagando só um trecho. Com R$ 400, consegui comprar uma passagem pra Natal, e parei em Salvador, Maceió e Recife. E articulei shows nessas cidades. Fui sozinho e consegui músicos e participações em cada uma dessas cidades. A divulgação, a produção e a articulação foram feitas pelos fóruns e cooperativas, com apoio inclusive do Fora do Eixo na divulgação. Num edital que a cooperativa lança, não participo, já estou excluído. Mas, como figura de frente, eu sou a pessoa que estabelece os contatos. Não sou hipócrita, sou músico, vivo do meu trabalho. Fiz o lançamento de um aplicativo pequeno, que ainda está em processo de construção, mas a gente resolveu botar ele durante a turnê, que teve repercussão na mídia também por esse detalhe. Mas é difícil conciliar.
PAS: É um sacrifício?
MK: Eu tenho o maior prazer, porque eu não queria fazer outra coisa. Foi isso que eu escolhi. E a forma de viabilizar a minha carreira passa por aí. Se a gente não fizer ninguém vai fazer, saca? E eu sei que vou colher esses frutos também.
PAS: A impressão que dá é de uma estrutura bem organizada que se construiu com grande rapidez. Já estão fazendo um congresso de cooperativas.
MK: É muito rápido porque a gente já tinha um acúmulo de experiência do fazer. Isso tanto a gente quanto o pessoal do Fora do Eixo tinha muito claro: nós não queremos estar na grande indústria. Um termo que a gente costuma usar é contraindústria, no sentido até de recuperar aquele sentido da contracultura, de uma desobediência civil, um posicionamento aguerrido. Isso sempre esteve muito claro. A gente não esá construindo carreira independente pra ser trampolim, pra ser descoberto. Em Minas, a gente viu gerações se frustrando porque ficavam esperando Roberto Carlos bater na porta da casa e falar: “Você é genial, eu vou te gravar”. A gente sempre ficou muito de olho em dois modelos, Pernambuco e Bahia, porque são dois modelos fora do eixo, fora da grande indústria.
PAS: De modo concreto, como a sua experiência política repercute no seu ofício, que é fazer música?
MK: O meu disco anterior tinha uma pegada muito política, explícita. Inclusive, em algumas situações, teve uma resistência a isso, porque parecia panfletário. Acho ainda pertinentes as falas que coloquei ali, Subcomandante Marcos, Glauber Rocha, Hugo Chávez. Mas principalmente a do Chávez teve uma espécie de patrulhamento, tanto à direita, de me associar diretamente àquela esquerda comunista, quanto à esquerda, de achar desrespeitoso, porque é uma música que falo de rimar pau com boceta.
PAS: Como você definiria o trabalho que você mostrou ontem no show?
MK: O mote do disco tem um sentido político, mas está um pouco mais diluído. Está um pouco menos na frente. Tenho tentado separar um pouco as coisas. Não separar no sentido de negar, mas não quero que o palco seja um palanque pra defesa de uma política que vou defender lá no colegiado setorial da música. Mas a política está presente de uma forma até inconsciente.
PAS: Deixa eu dar um exemplo. Tem viola caipira, e ontem, na circunstância de faltar o som nela, você teve a chance de dizer que a viola é discriminada nas cidades grandes.
MK: Tenho vários amigos violeiros, hoje a viola reverteu isso. Tem o movimento dos violeiros, acho às vezes até meio chato que a viola tem que ser do mato. É um instrumento, e você usa ele, e ele pode estar dentro de uma banda de rock pesado. Mas tem esses pequenos preconceitos, como teve com a guitarra. São casos inversos, mas complementares.
PAS: A princípio, a guitarra tinha ganhado, mas agora não dá pra ter tanta certeza assim.
MK: É, eu tenho uma crítica àquela viola de raiz, já pensei em fazer um disco só com sons de viola urbana, imitando uma impressora a jato de tinta (risos), só tirando uma onda dos violeiros. É um instrumento versátil, que se presta a muitas coisas.
PAS: Noutro momento você diz: “Vou fazer uma ciranda agora, na verdade nem sei se é uma ciranda”. São elementos de identidade que está usando de modo livre, não pra reproduzir o que na verdade você não é.
MK: Nesse disco eu trabalho com muitos motes e ritmos que absorvi, mas nunca fiz uma oficina de ciranda pra saber, nunca fui estudar ijexá. Me sinto à vontade pra me apropriar disso da forma como eu entendo.
PAS: Mas você está interessado em fazer isso, podia estar interessado no grunge.
MK: A música “Santeria” eu fiz imaginando que estava fazendo uma rumba, um ritmo caribenho. Aí mostrei pro Guinga, e ele falou: “Isso não é uma rumba, é um galope sergipano” (ri). No final das contas, a gente já tem essas matrizes todas aqui, e essa bobagem de dizer que isto é de fora e isto não é de fora… Na verdade, tudo é de fora, toda a cultura armorial do Ariano Suassuna veio de fora, foi importada.. Ao mesmo tempo, isso não deixa de ser nossa. Essa apropriação me interessa muito, e não tenho o menor constrangimento de pegar uma métrica como o martelo e botar dentro de uma melodia que não é característica dessa métrica. Ou usar uma melodia de aboio e botar uma letra que não tenha nada a ver com aquele universo. Tenho uma referência muito forte com relação a isso, que é o Bráulio Tavares (autor de sucessos de Elba Ramalho e Lenine). Ele faz essa transposição muito bem, entre a cultura popular, o pop, o erudito.
PAS: Pergunto à queima-roupa: existe uma escola João Bosco de música brasileira? Vi o fantasma dele lá no show…
MK: (Ri) É uma referência forte, na coisa de não ter uma formação acadêmica. Gosto muito da percussão do violão do João Bosco. Os dois violonistas que não são necessariamente violonistas, mas que mais me influenciaram foram João Bosco e Gilberto Gil. Aquela fase do Gil de Expresso 2222, aquele violão ponteado, e no João Bosco a percussão, o loop e o ostinato que ele usa no violão são referências muito fortes. E claro que é filtrado pela minha deficiência como músico, mas também pela influência da escola mineira. Meus parceiros todos têm essa coisa da harmonia, a referência do clube da esquina, do Guinga, do Tom Jobim: Chico Saraiva, Kristoff Silva, Mário Seve.
PAS: Gilberto Gil é o tropicalismo, Milton Nascimento é o clube da esquina, mas o que João Bosco fez não teve um nome. E é tão característio, e particular – e mineiro, afro.
MK: Minas é o segundo estado com maior população afrodescendente do país. E os africanos que vieram pra cá, ao contrário da Bahia, que recebeu muito iorubá, foram africanos bantos, que são muito diferentes, é outra conversa, outra relação com a música, outra língua, os gestos, a expressão. Isso tem uma influência muito forte no interior, o João é de Ponte Nova e estudou em Ouro Preto, como eu também estudei. A relação da população negra da cidade é muito forte, porque os negros de Ouro Preto vivem na periferia, nos morros, e frequentam o centro histórico como trabalhadores. E essa relação é tensa, muito forte, o João traz muito isso. Ele e o Aldir Blanc, que é uma referência muito grande também.
PAS: Eu ia falar isso, não está certo falar escola Bosco, devia ser Bosco-Blanc. Sua poesia não tem a ver com a do Aldir Blanc, mas em alguns momentos também remete, de algum modo.
MK: Pra mim, se for pensar em alguns letristas de referência, numa linha temporal, é Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Bráulio Tavares, Arnaldo Antunes. Paulo Leminski também foi importante pra mim, de fazer esse gancho, como Alice Ruiz ele hoje estaria muito mais ligado à música que à poesia.
PAS: Aldir tem uma temática com “os bóias-frias”, uma proximidade verdadeira do que seria uma poesia popular. Quando você se aproxima do rap, por exemplo, ou dos catadores de papel, está tentando algo parecido? É pra ser popular ou não é? Noutro momento você brinca com um refrão: “Vou fazer um refrão fácil e vocês cantam comigo”, e canta um refrão superdifícil, que não decorei até agora (risos). Qual é essa provocação?
MK: É uma brincadeira, isso de tirar uma onda do público é um pouco do Tom Zé. A gente faz uma música que não é necessariamente pra dançar, pra embalar romances. É uma música pra pensar, não que seja intelectual no sentido mais puro do termo. Mas é pra despertar alguma reflexão, é como eu ouço música. Olha que sacada legal, de alguma forma a gente está pensando através da música, né? E esses comentários são uma forma de tentar dar um clique, olha, peraí, ele está falando comigo?
PAS: Por outro lado, chegou o baixista, você chamou dois parceiros nordestinos, de repente eram seis caras no palco cantando uma melodia linda, que dava pra cantar junto, falando que “esta ciranda é pendular”, o que não é um linguajar habitual da música popular.
MK: O Aldir tem toda a erudição dele, ele insere nas músicas às vezes até de uma forma pedante, em muitas parcerias com o Guinga, fica citando frases em francês e inglês. Eu acho chat, mas mesmo assim às vezes ele cria termos que viram…
PAS: “Band-aid no calcanhar”.
MK: “Band-aid no calcanhar”, viram expressões. Isso pra mim é genial, a grande realização do compositor. O Aldir é extremamente feliz nessas soluções, “de frente pro crime”, essas expressões que ele consegue criar numa música extremamente sofisticada, até difícil do ponto de vista formal – é difícil tocar João Bosco. E ao mesmo tempo de uma ironia, “quem dá sardinha em plena beira do mar é coqueiro”, umas sinapses absurdas que levam um tempo, você percebe, mas não consegue entender racionalmente, entende quase intuitivamente no momento que ouve. Isso eu busco, todo mundo busca, conseguir fazer com que o público crie sinapses. Nessa ciranda uso uma melodia muito característica das cirandas, dou uma desvirtuada e faço uma associação e ideias que é muito comum na poesia. A ciranda é circular, ela lembra um sonar que bate e volta e um pêndulo. Ela tem o movimento das ondas, né? A ciranda tem os dois movimentos, porque ela gira, mas ao mesmo tempo o movimento dos braços lembra uma onda, vai e volta como um sonar, mas ao mesmo tempo é pendular.
PAS: A letra mais instigante, pra mim, é a que fala que o perigo é prazeroso. Como é mesmo?
MK: “Código Aberto”.
PAS: O título, por sinal, entra em vários territórios, de copyrights, copylefts…
MK: (Recita) “Sei que a vida é um código aberto/ mas eu sei que viver é perigoso/ nunca houve uma época segura/ o perigo também é prazeroso/ não se pode viver é na paúra”.
PAS: Essa mania que temos de reclamar, “ah, como a violência aumentou ultimamente”…
MK: Se você estudar um pouco de história, vai ver que a humanidade sempre foi cruel, sempre cortou cabeças. Aí eu cito o Guimarães Rosa, que viver é perigoso. Se você está vivo e se recolhe, está muito mais seguro, mas também abre mão de um monte de prazeres. É um círculo, o prazer é perigoso.
PAS: E o perigo é prazeroso.
MK: O perigo é prazeroso, injeta adrenalina. Estive duas vezes já no Acre, li que foi inaugurada a estrada transoceânica, terminaram a última ponte que liga o Brasil ao Oceano Pacífico. A matéria dizia que é uma viagem muito interessante, mas é perigosa. Aí dá muito mais vontade de fazer, imagine sair do Brasil, atravessar a floresta tropical, entrar nas cordilheiras, atravessar os Andes e chegar no Pacífico. Um sonho de gerações. E poder ainda desbravar uma estrada quase virgem, que ainda não foi desbravada. É instigante, muito mais que viajar pela Route 66. Essa música é um martelo, que é uma estrutura tradicional, e é um tema pouco usual para trabalhar num martelo, código aberto, que é uma metáfora pra própria vida. É um pouco o que o Bráulio faz muito bem, pegar a ficção científica e botar num cordel, e misturar esses códigos.
PAS: Zé Ramalho, antes, também fazia isso.
MK: É, ele é muito amigo do Zé Ramalho, são parceiros. É o que Zé Limeira já fazia também, o absurdo, a hipérbole, aquelas situações.
PAS: Sobre prazer perigoso e perigo prazeroso, fazer música e política ao mesmo tempo é perigoso? É arriscado?
MK: Tem muitos riscos, principalmente pra carreira musical. A política é um terreno muito pantanoso, e mais que isso, existe um estigma negativo. Semana passada estávamos em Brasília, na reunião da frente parlamentar da música, estavam o Frejat, Fernanda Abreu e Sérgio Ricardo. Foi um dos encontros mais curiosos que já tive, porque o Sérgio Ricardo é um cara marcado profundamente pela atitude política sem querer. Aquela atitude dele (de quebrar o violão no festival) em 1967 marcou o resto da vida dele, e não tinha como ele não ter uma atitude política. De alguma forma, ele está retomando esse engajamento com o manifesto G.R.I.T.A., e já gerou uma polêmica, porque ele é amigo do Chico, o Chico assinou, depois pediu pra sair, criou uma indisposição com o MinC. A Ana complicou a vida do Chico, né (risos)? Acho saudável botar o Chico na roda, ele fica numa situação muito confortável, de unanimidade.
PAS: Mas qual foi essa história?
MK: O Sérgio Ricardo lançou o manifesto, um pouco romântico, a gente até falou: “Olha, Sérgio, a gente já está fazendo um monte dessas coisas aí, vamos chegar junto, vamos tentar alinhar o discurso”, eu almocei com ele nesse dia. Ele leu o texto super romântico, no bom sentido até, com intenções nobres, mas falando de coisas que são de um outro tempo. É um cara que está aí, tem vários filmes fundamentais, A Noite do Espantalho, O Menino de Calça Branca, fez a trilha do filme do Glauber, é pintor. É uma referência de uma possibilidade.
PAS: …Que foi muito desqualificada ao longo das últimas décadas.
MK: Foi. O Chico assinou, porque é amigo do Sérgio, mas parece que teve uma chamada da irmã… Tiraram a assinatura dele, e isso deu mais visibilidade: por que o Chico tirou? O ministério está sendo questionado, está tendo crítica, não pode criticar? Se um Buarque de Hollanda critica…
PAS:É o mesmo que falávamos dos tucanos de Minas e de São Paulo.
MK: Exatamente. Mas acho saudável ter essa discussão, colocar na roda, e é muito legal ter vindo do Sérgio, que é um cara muito respeitado pelos pares dele, apesar de tudo.
PAS: Ele é? A imprensa não respeita, nem toma conhecimento.
MK: É, é aquele tipo de caso, como diz o Luís Nassif, de assassinato de reputação. Pete Townsend pode quebrar a guitarra, mas esse cara não, é considerado um vândalo até hoje. Pelo amor de Deus.
PAS: Eu perguntei sobre perigo e você associou com Sérgio Ricardo. Você pode ser estigmatizado por fazer política num lugar que supostamente não era pra fazer?
MK: E do outro lado as pessoas acharem que você está se beneficiando dos canais, que deve estar recebendo dinheiro do ministério. Você acaba sendo muito mais policiado, e acaba tendo que ter uma posição muito mais reta. Tem que se resguardar mais, o processo é muito mais melindroso.
PAS: Por que o primeiro encontro das cooperativas musicais está acontecendo no Acre?
MK: Estive aqui no final do ano passado pra falar sobre o fórum e as cooperativas, e eles tinham uma estrutura toda já montada, a secretaria com a fundação, o Sebrae, o governo do estado, a prefeitura. Pra eles o que faltava era uma entidade da música organizada, tinha essa lacuna no organograma. Falei: “Mas a situação é muito mais favorável, em quase todos os outros estados não existe um alinhamento como vocês têm aqui. Vocês estão com tudo na mão”. Um mês depois eles criaram e foram pra Belo Horizonte já como cooperativa. Viemos em maio discutir, quando chegamos na reunião estavam o gabinete do senador Jorge Viana, do governador, o secretário de cultura, o presidente da fundação, o secretário de pequenos negócios, o presidente do Sebrae. Eu não consigo, nem pra cultura, muito menos pra música, menos ainda pra cooperativa da música uma pauta com o governo de Minas com uma antecedência mínima de seis meses. A gente não tem esses acessos. Aqui eles têm um governo com uma ação exemplar no âmbito social e cultural, dizem que o PT aqui é o PT que deu certo.
PAS: E foi aqui que o PT e Dilma tomaram surra na eleição passada, não foi?
PAS: Eles quase perderam. É sintomático. E ao mesmo tempo o senador Jorge Viana, que foi governador, tem prêmios internacionais, é reconhecido. Independente disso, a gente achou simbólico trazer uma ação dessa pra cá. Imagina, o Acre tem muita gente que duvida até que existe.
PAS: Uma piada de mau gosto.
MK: De mau gosto, pejorativa. A gente trazer pra cá e mostrar como o Acre está preparado… A gente apoiou imediatamente, porque pra gente é um modelo, mostra que não precisa muita coisa, é vontade política. E é uma forma de chamar atenção pra essa articulação que está surgindo hoje na região Norte, que por muito tempo ficou à parte. Aponta pra nossa vontade de integrar realmente o Brasil inteiro, o que as gravadoras nunca fizeram.
PAS: E é a terra do João Donato.

MK: Terra do João Donato!, eles inclusive gravaram um DVD em homenagem a ele aqui, quando eu estive da outra vez ele estava aí gravando.

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