Magazine Luiza

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Espelho retrovisor.

Dando uma pausa na política, mais a frente espero poder falar de futebol, mas agora voltarei para música.
Introdução: Conheci  Anderson Fonseca nas curvas dessas estradas da vida. Tínhamos um interesse em comum: uma banda dos anos 80 chamada Engenheiros do Hawaii... Com um gosto musical refinado e bastante talento agregador e produtor sempre trazia produções independente de qualidade, demostrando grandes habilidades. Sempre dizia que ele tinha futuro, assim como se diz que o Brasil é o país do futuro... Eis que ontem no Blog do Humberto Gessinger:

Antes de continuar o post, só vou colocar a conclusão:
Parabéns a todos os envolvidos, em especial aos produtores. Estou emocionado. Nos finais dos anos 80 quando ainda havia aquela discussão sobre Engenheiros X Legião, eu dizia que os fãs do Engenheiros são de grande qualidade… Assim como o vinho a qualidade aumenta com o passar do tempo… Eu disse que estou emocionado e não sei nomear a emoção… Não posso dizer orgulhoso. Mas é algo próximo disso… Orgulhoso de ver que a família EngHaw cresceu e está por aí fazendo o mundo ficar melhor… O orgulho vem de poder dizer que faço parte da família EngHaw desde sempre…

No BloGessinger na virada do dia entre  10/11/2014 e 11/11/2014:

Amigos: hoje não vai rolar texto à meia-noite por motivos de : "tem dias que quero ficar quieto". Volto semana que vem. Enquanto isso, cuidem-se e divirtam-se (na ordem que quiserem)!



Bah: amanhã, 11h11min,  através do site www.screamyell.com.br/site vai ao ar o ESPELHO RETROVISOR, um tributo trilegal aos EngHaw capitaneado pelo Anderson Fonseca e com esta galera bacana:

01 Toda Forma de Poder (gessinger1986) por Anacrônica (PR)
02 Terra de Gigantes (gessinger1987) por Phillip Long (SP)
03 Refrão de Bolero (gessinger1987) por Monocine (SC/MG)
04 Infinita Highway (gessinger1987) por Strobo (PA)
05 Somos Quem Podemos Ser (gessinger1988) por Dingo Bells (RS)
06 Alívio Imediato (gessinger1989) por Dias Buenos (SP)
07 O Papa É Pop (gessinger 1990) por Forfun (RJ)
08 Pra Ser Sincero (gessinger/licks1990) por Tsubasa Imamura (Japão)
09 Quartos de Hotel (gessinger1991) por BLANCAh (SC)
10 Ando Só (gessinger1991) por Mário Wamser (MG)
11 Pose (gessinger1992) por A Banda Mais Bonita da Cidade (PR)
12 Parabólica (gessinger/licks1992) por Vera Loca (RS)
13 A Promessa (gessinger/casarin1995) por Nevilton (PR)
14 Ilex Paraguariensis (gessinger1995) por Bebeto Alves (RS)
15 3 Minutos (gessinger1997) por Dolores 602 (MG)
16 Eu Que Não Amo Você (gessinger1999) por Lula Queiroga (PE)
17 Concreto & Asfalto (gessinger1999) por Esteban Tavares (RS)
18 Números (gessinger2000) por Dario Júlio & Os Franciscanos (MS)
19 Dom Quixote (gessinger/galvão2003) por Fernando Anitelli (SP)
20 Outras Frequências (gessinger2004) por Borba (RS)
21 - Não Consigo Odiar Ninguém (gessinger2007) por Sonorata (MG)

Por enquanto, fica um emocionado agradecimento a todos que participaram. Em breve falo mais a respeito.


Mais detalhes, amanhã no jornal Zero Hora, com quem bati o seguinte papo:  


1. Você teve algum tipo de participação no disco, tipo opinando sobre os arranjos ou a escolha das música?

Não. Fiz questão de não me meter. Este tipo de projeto é mais legal quanto menos reverente for. Aqueles discos de dueto, clássicos da indústria fonogáfica... melhor deixar para um futuro longínquo, né? 

Quero mais é que minhas músicas se defendam sozinhas do que vier pela frente. Pouca coisa me deixa mais feliz do que andar por alguma cidade do nordeste e ouvir aleatoriamente uma música minha transformada em forró, em algum bar ou na beira da praia. Samba também é legal. Mas forró me deixa particularmente emocionado. Ou ouvir um mineiro enchendo de sutilezas a harmonia do violão para uma música que escrevi só com um baixo no colo e uma ideia na cabeça. 


2. Você chegou a ouvir as músicas do tributo? Algum arranjo que gostaria de destacar?

Sim, me emocionei muito! Mais do que algum arranjo especial, meu destaque vai para a diversidade geográfica e estilística das releituras. E para o fato de serem todos artistas que certamente terão uma longa estrada pela frente. Também achei legal a escolha livre dos caras abranger as 3 décadas de carreira.


3. O que achou do tributo? É algo que você esperava? De repente dá para esperar uma espécie de redescoberta dos Engenheiros nessa data redonda de 30 anos e tal?

Não esperava. Acho que meu trabalho nunca foi daqueles que emprestam prestígio automático a quem se aproxima dele, tipo a meia dúzia de compositores insensados que abrem portas para quem os regrava. Talvez por ser muito pessoal, não muito fácil de enquadrar. Quando a onda era rock, me achavam muito MPB. Quando a onda virou POP eletrônico, passaram a me achar muito rock. Quando era pra ser nacional, eu era muito gaúcho e quando inventaram o rótulo rock gaúcho, eu não tava mais aqui. Agora, que a onda é revival, dei um tempo na grife e sai solo. Não tô me vangloriando nem me queixando disso, mas é um fato. Por isso me surpreendeu o tributo.

Quanto a redescobrimento, é uma noção que já não faz mais sentido. Cada ouvinte/artista tá fazendo sua própria agenda. Tudo esta vivo, suspenso... no éter online.


  Espelho Retrovisor Tributo aos Engenheiros do Hawaii


Para quem viveu os anos 80, amar os Engenheiros do Hawaii tinha um gostinho de provocação: 90% da crítica especializada caçoava da banda enquanto os fãs os colocavam em um patamar próprio, cravando hits (alguns à revelia dos programadores de FM numa época em que a voz do ouvinte fazia diferença no dial), colocando os álbuns da banda na lista dos mais vendidos e tornando canções como “Terra de Gigantes”, “Infinita Highway” e “Pra Ser Sincero”, entre muitas e muitas outras, em clássicos da música popular brasileira.
O tempo passou, e às vésperas de completar 30 anos de carreira, o Engenheiro-mor Humberto Gessinger anuncia o lançamento de seu primeiro DVD solo, “Insular ao Vivo”, que terá show de lançamento em São Paulo no dia 10 de janeiro de 2015 (o primeiro show dos Engenheiros aconteceu num 11 de janeiro… de 1985) no Citibank Hall – e os 7 mil lugares deverão estar tomados para ver o músico colocar um bom número de canções novas ao lado de clássicos e raridades dos Engenheiros – como “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir”.
Este tributo, organizado com dedicação extrema pelo produtor Anderson Fonseca, visa revisitar canções que acompanharam gerações (e devem acompanhar muitas outras). Com arte assinada por Luis Saguar e Melissa Mattos, “Espelho Retrovisor” passa por quase todas as fases dos Engenheiros do Hawaii (e foram muitas em 30 anos), e tem como mérito exibir novos olhares – muitas vezes diferentes – sobre o mesmo horizonte.
Há versões para todos os gostos neste tributo: do duo paraense Strobo e sua versão provocante de “Infinita Highway” (1987), passando pelo pernambucano Lula Queiroga, que recriou “Eu Que Não Amo Você” (1999), pelo mineiro Mário Wamser e sua versão delicada para “Ando Só” (1991) até os curitibanos da Anacrônica (que gravaram o primeiro grande sucesso nacional dos Engenheiros, “Toda Forma de Poder”, de 1986) e da Banda Mais Bonita da Cidade (que assina uma bela versão de “Pose”, de 1992).
O músico paulista Phillip Long marca presença com uma versão lírica de “Terra de Gigantes” (1987) enquanto Dary Jr., ex-Terminal Guadalupe, aparece com seu projeto Dario Júlio & Os Franciscanos numa versão cativante de “Números” (2000). Fãs devem se surpreender com a excelente recriação da DJ e produtora catarinense Blancah PatyLaus para “Quartos de Hotel” (1991), com a versão potente de “A Promessa” (1995) assinada por Nevilton e pela releitura de Fernando Anitelli para “Dom Quixote” (2003), uma das favoritas do fã-clube da banda.
A ala gaúcha comparece em peso com Bebeto Alves numa versão autenticamente sulista para a não menos regional “Ilex Paraguariensis” (1995); com a banda Vera Loca numa versão ao vivo de “Parabólica” (1992) registrada no Theatro São Pedro, em Porto Alegre; e com Esteban Tavares (que acompanha Humberto na carreira solo), que escolheu “Concreto & Asfalto” (1999). A cantora japonesa Tsubasa Imamura surpreende com uma versão de “Pra Ser Sincero” (1990). E há mais, muito mais.
Nossa intenção com “Espelho Retrovisor” é prestar homenagem a uma banda que admiramos e respeitamos muito. Por isso este álbum é dedicado a Humberto Gessinger, Augusto Licks, Carlos Maltz, Marcelo Pitz, Ricardo Horn, Fernando Deluqui, Paolo Casarin, Adal Fonseca, Luciano Granja, Lúcio Dorfman, Gláucio Ayala, Paulinho Galvão, Bernardo Fonseca, Fernando Aranha e Pedro Augusto, músicos que emprestaram seu talento ao Engenheiros do Hawaii nestes 30 anos de carreira. O tempo passa e as boas canções ficam.
Texto por Marcelo Costa, editor do Scream & Yell



Hastags: #espelhoretrovisor e #engenheiros30anos



Entrevista: Humberto Gessinger

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Humberto Gessinger não tem pressa. Aos 50 anos recém-completados, quase 30 deles passados entre estúdios e palcos, ele quer distância do ritmo alucinante que marcou o início de sua carreira – foram oito discos em oito anos entre 1986 a 1993, 17 lançamentos com o Engenheiros do Hawaii, entrelaçados com um disco do Humberto Gessinger Trio, seguidos por dois lançamentos em anos seguidos com o poucavogal, projeto com o amigo Duca Leindecker, do Cidadão Quem.
Humberto Gessinger é um cara tranquilo. Ele acaba de lançar um disco, “Insular”, o 21º lançamento de sua carreira e o primeiro solo, “por acaso”, como ele conta mais abaixo. Também acaba de lançar um livro, seu quinto, “6 Segundos de Atenção”. Os dois lançamentos o têm feito rodar pelo país nos últimos meses – mas é sempre uma coisa de cada vez. Se a viagem é para o livro, como foi a que o trouxe a Sorocaba no fim de novembro, para uma concorrida noite de autógrafos numa livraria de um shopping, nada de violão ou instrumentos, nem sequer uma palhinha – no máximo um ou outro inevitável autógrafo num disco.
Humberto Gessinger é na dele. Adora ler biografias e diz que não ligaria se resolvessem escrever a dele – mas, como leitor, acha que tem muita picaretagem no ramo. Gosta de política, mas evita falar sobre porque não quer fazer a cabeça de ninguém. Acha injusto cobrar o envolvimento de artistas no debate político usando a ditadura e a década de 1960 como fonte de comparação. E não sabe dizer se haverá um novo disco dos Engenheiros. “Não tem plano de voltar – o que não significa que não possa voltar”.
Conversei com Humberto Gessinger por cerca de meia hora na tarde de 27 de novembro, antes de ele seguir para a livraria onde ele daria a noite de autógrafos. Simpático, falou como se conversasse com um velho conhecido e relembrou um incidente numa passagem para um show na cidade, em 1993: “Como era mesmo o nome do clube em que a gente tocou? Isso, Recreativo. Lembro que o som era muito ruim e que eu estava de calça de couro e ela rasgou na primeira música, fiquei boa parte do show quase de cueca, escondendo com o baixo.” A entrevista:
Como foi o momento em que você percebeu que tinha coisas a dizer que não cabiam em forma de música e que precisava escrever livros?
Cara, na minha vida a palavra escrita é anterior à palavra cantada, escrevo há mais tempo do que canto. Então a decisão, na verdade, não foi de começar a escrever, mas de lançar meus livros. No principio fui muito reticente, achando que não poderia me expressar mais do que me expressava com a música, e por incrível que pareça o livro que quebrou esse gelo, essa reticência de publicar, foi o menos autoral dele, que foi um livro que fala sobre o Grêmio, para literatura infantil, que fazia parte de uma coleção com vários times (“Meu Pequeno Gremista”, de 2008). Ali saquei que havia uma galera interessada no que eu escrevia. Depois lancei a biografia (“Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre Um Mesmo Tema”, de 2009), e então ficou uma coisa constante como no início da carreira eram constantes os lançamentos de discos, uma coisa quase anual. E descobri que há sim um tipo de comunicação diferente da musical por meio da literatura. Os meus leitores me ensinaram isso. Muita gente começou a observar: “Pô, me sinto muito mais próximo a ti lendo teus livros”, gente que me ouvia há 20 anos, e acho que um pouco se dá pela maneira como eu escrevo e um pouco é característico do formato literatura mesmo. A literatura junta a solidão de quem escreveu com a solidão de quem lê. É um formato mais introspectivo do que a música e dá essa sensação de maior proximidade. É como se jogasse uma outra luz no mesmo objeto.
E são os mesmos públicos? Você tem essa noção, tem gente que gosta só do Humberto escritor, ou mais do que do Humberto autor, cantor, compositor…
A princípio naturalmente o pessoal que começou a se interessar era mais que me conhecia como músico, né? Mas já sinto, senão um público diferente, uma maneira diferente de perceber. As pessoas já não compram os meus livros por conhecer a banda em que o autor toca. Agora, é bem provável que seja, por ambos serem muito autorais, não é ficção que eu escrevo, é bem provável que seja o mesmo tipo de pessoa que se atrai pela música.
Uma questão que o meio artístico abordou nos últimos tempos é o caso do Procure Saber, o lance das biografias. Qual é sua posição a respeito? Você acha que a pessoal tem de ter liberdade para escrever? Se alguém quiser escrever uma biografia sua, você vai autorizar?
Eu vou falar mais como um leitor de biografias, que eu sou muito, do que como um possível biografado, não sei se eu causaria interesse para tanto. Como leitor de biografia, acho que a gente tem direito de saber coisas sobre quem fez a nossa história sentimental. Por outro lado, eu gostaria muito de ser protegido de algumas biografias de muito pouca qualidade que eu mesmo compro. Apesar de me considerar um cara relativamente esclarecido, caio às vezes numas arapucas comerciais, biografias que não têm nada a acrescentar e são caça-níqueis mesmo, usam a figura de alguém conhecido pra ganhar dinheiro. Mas obviamente não se pode enquadrar aí todas as biografias, e acho difícil criar um selo distinguindo uma biografia boa de uma ruim. O que vai acontecer é que vão se liberar as biografias e nós, leitores, vamos aprender a lê-las. A gente não pode acreditar em tudo o que está escrito também. Isso é o que vai acontecer e é disso que eu sou a favor, é uma resposta que eu me sinto cada vez mais repetindo, não só em relação a essa questão, mas em várias coisas que têm acontecido no Brasil, como as manifestações de junho. A impressão que eu tenho é que a gente tá aprendendo a se comunicar e a expressar o país que quer, e isso ainda vai demorar tempo. Então sou a favor disso; que se libere, mas que o leitor fique atento. É claro que tem biografias que são caça-níqueis, mas tem biografias que são fundamentais até para tu entender melhor a obra das pessoas que tu admira.
Então se alguém escrevesse a sua você não ia se opor….
Não, não. Eu não sei se eu teria paciência de colaborar muito, porque eu já escrevi a minha, mas não me oponho, não. Até acho o trabalho de pesquisa interessante. Acho também que essa é uma questão meio ultrapassada, porque tá tudo tão exposto no meio virtual…
É isso estava em discussão. O cara reclama de uma biografia, mas não de aparecer na Caras.
É, mas eu acho que mesmo no meio virtual é tanta informação que vai ser relevante que, de tempos em tempos, alguém com o dom para escrever e para ordenar os fatos faça a história disso. Talvez aconteça isso. Porque, hoje em dia, o que importa não é revelar os fatos, os fatos estão quase todos na cara de todo mundo, é sim fazer a conexão entre eles, racionalizar os fatos. A informação está acessível, falta quem faça as conexões, aí é que a informação começa a ser valiosa mesmo. Quando ela é uma lista de dados, não significa nada, mas sim quando a gente começa a conectar ela, e nesse sentido sempre vai ser necessária, fundamental, a ação de historiadores e pessoas que pensem em música e tal. Mas eu tenho a tendência a gostar sempre mais das autobiografias, apesar de saber que são sempre visões superparciais. Acho que lendo autobiografias, lendo sobre o momento histórico e acompanhando as músicas do artista, mesmo que isso não revele diretamente as coisas, se aprende muito. Mesmo as coisas que uma pessoa esconde revelam muito sobre ela.
Você falou sobre as manifestações. Você acha que falta para os artistas se posicionar mais politicamente hoje?
Acho que se compara sempre as posições dos artistas com um momento histórico muito diferente, onde as opções eram menores e mais explícitas, onde se lutava contra uma ditadura, com o mundo dividido numa guerra fria. O mundo é muito mais complexo hoje, e entre revelar levianamente sua opinião sobre assuntos profundos em 140 caracteres e ficar quieto, passar a impressão de que somos alienados, eu prefiro ficar quieto e passar a impressão de que sou um alienado do que discutir questões profundas com a superficialidade do Twitter, por exemplo. Os tempos são outros, as questões são muito mais complexas e, se nos anos 70 os artistas tomaram a frente pra falar coisas que outras pessoas não podiam falar, hoje em dia as pessoas que são mais gabaritadas pra falar sobre as coisas, os sociólogos e cientistas políticos, têm a chance de falar. Acho que se relativiza um pouco a opinião que um artista tem sobre a política hoje em dia.
Você se sentiria à vontade de fazer uma campanha política, de abrir seu voto?
Não, não. Cada vez tenho menos interesse nisso, em fazer a cabeça das pessoas. Claro, a política em si me interessa, desde sempre, mas cada vez tenho menos interesse em influenciar as pessoas. E não sei se é benéfico um moleque fazer sua cabeça por conta de um músico que ele admira, entendeu? Eu preferia que os caras que me ouvem se interessassem em ouvir opiniões mais abalizadas sobre política. Continuo tendo as minhas opiniões, claro, mas, não sei se é porque eu tô ficando velho – talvez seja por isso (risos) –, mas cada vez tenho mais cuidado e menos vontade de fazer a cabeça das pessoas.
Você está entrando em sua quarta década de participação na cultura brasileira. Como você a enxerga, hoje? Ela está mais rica, mais diversificada?
A cultura brasileira sempre foi muito diversificada e acho que hoje ela está mais fragmentada, não vejo uma grande onda dominante. Desde que eu comecei sobrevivi a várias ondas, até o pop rock foi uma onda, depois a lambada, depois sertanejo, e eu não sei qual é a onda dominante agora. Acho isso bacana, gosto dessa fragmentação, dessa diversificação, mas acho que é como tudo na vida: tem os prós e contras. Tu não pode mais ser um ouvinte passivo, tem que buscar as coisas. Vejo muito a molecada que não viveu os anos 80 e reclama, sente saudade dos anos 80, e eu tento até desmistificar isso. A molecada diz: “Pô, as bandas hoje em dia não são legais”. Cara, deve ter muitas bandas legais por aí, mas que não estão conseguindo espaço que as bandas dos anos 80 tinham. Me parece meio improvável que a qualidade baixe de uma geração pra outra com tanta informação. É claro, artistas de exceção existem em todas as gerações, mas em geral acho que nós, como ouvintes, e agora me colocando como ouvinte mesmo e não como artista, estamos talvez menos generosos na maneira como a gente absorve a arte. Eu, quando comecei, a primeira vez que eu toquei uma música que não fosse minha num show, eu tinha três discos de ouro pendurados na parede, e hoje acho praticamente impossível uma banda começar sem tocar uma cover, parece que as pessoas querem ouvir mais do mesmo. Então, acho que quem reclama da qualidade tem que questionar não só quem está produzindo, mas quem está consumindo.
Isso é uma coisa que pessoalmente eu tenho notado e até brinco com amigos: parece que nenhuma música precisa mais ser composta, tudo o que precisava ser escrito já foi escrito.
Bom, se tu for analisar do ponto da música formatada, pra tocar no rádio para as massas, talvez todas elas estejam escritas mesmo, talvez a gente só precisasse escrever “Something” e mais duas… (risos) Mas eu digo o seguinte: ao largo dessa música há muita música pra ser feita hoje em dia, que não se pretenda hegemônica. Eu me lembro de uma experiência interessante, a gente estava numa rádio e tocou “A Revolta dos Dândis” na íntegra, uma coisa que a gente nunca tinha feito, e causava muito estranhamento. Eu ouvi de muita gente: “Nossa, que coisa incrível”, “Que densidade”, e as pessoas não entendendo como aquilo poderia ser tão denso sendo que é uma coisa popular. Várias músicas tocaram na rádio, e então eu volto a dizer, pô, a gente pode reclamar dos artistas que estão se repetindo, mas a gente tem que pensar em nós como ouvintes, se não estamos perdendo a generosidade. Quando lancei “Infinita Highway”, uma música de mais de seis minutos, ou “Terra de Gigantes”, que era uma música sem bateria, eram coisas que iam contra o sistema, e hoje eu não sei se nós, como ouvintes, temos a generosidade com o que está indo contra o sistema. E tem uma coisa também que me parece que era mais saudável, que era uma certa mistura, por não ter canais muito específicos. Por exemplo, quando comecei tu não tinha uma MTV da vida, caía no mesmo redemoinho dos artistas mais populares, dos artistas regionais. Depois que começou a se especificar muito o som e cada um ficou no seu gueto, pessoal que faz rock n’roll aqui, pessoal que faz rap lá, parece que cada um fala só para sua turma, e isso, para a arte em geral, Arte com A maiúsculo, talvez não seja bacana, talvez as misturas possibilitem um arejamento. Eu senti muito isso no “Insular”, e é uma coisa que eu tenho sentido cada vez mais, necessidade de criar pontes. Eu acho, e o nome do disco se refere a isso, que cada artista, com sua obra, cria uma ilha, um mundo próprio, mas é bacana conectar essas ilhas, misturar… Esse disco, por exemplo, tem muita participação de músicos do Sul, desde o regional até o mais urbano, e saiu um pouco do seu quadrado…
Mas você sempre fez isso, né? Em 1991 já colocava Gaúcho da Fronteira no disco.
É, é, tinha muito, mas nesse disco fica mais explícito, talvez, por conta da produção. Mas realmente tu tem razão, desde o primeiro disco, “Longe Demais das Capitais” (1986), a gente já abordava um pouco isso. E é uma coisa que tem me interessado cada vez mais fazer.
Como você vê hoje uma avaliação da sua obra? Eu me lembro, quando você tocou e postaram no YouTube “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir”, eu pensei: “Não sabia que ele tocava essa”, porque era uma música pouco conhecida, um lado B do disco.
Foi em Belo Horizonte, e é uma música desformatada, que não tem o formato clássico da música pop, (e por isso) tocou muito pouco na época. Nos primeiros 10 anos, lancei praticamente um disco por ano, então os discos se encavalavam e era muito difícil fazer o roteiro do show, por exemplo. E hoje em dia eu gosto muito de pinçar essas coisas, algumas releituras, a gente tocou “Vozes” (de “A Revolta dos Dândis”, 1987) em BH também. É muito louco. Faço questão de tocar músicas de todas as fases dos Engenheiros agora, nessa turnê, mas a gente não está tocando tipo “Era um Garoto…”, “O Papa é Pop”, canções que toquei muito e que eram as músicas mais populares dos discos. Não queria fazer isso como se fosse, sei lá, “Eu sou o Led Zeppelin e não vou tocar Stairway to Heaven”, mas de forma natural. É muito fácil fazer o roteiro que tu quiser, mas o que me interessa mais é fazer isso quando há uma vibe receptiva, que acho mais interessante do que simplesmente fazer por vontade própria. E é muito louco que agora nessa turnê está acontecendo isso, e eu acho que até joga uma luz mais parecida hoje com o que eu sentia quando fiz o disco. Porque quando tu lança um disco, ele meio que já não é mais teu, as pessoas pinçam, principalmente antigamente, pinçavam algumas músicas, conheciam poucas músicas do disco, e hoje em dia em me sinto mais próximo da ideia original do “A Revolta Dos Dândis”, do “Papa é Pop”, do que na tour de cada um deles. Lembro que, na primeira vez que a gente foi tocar em Fortaleza, no lançamento de “A Revolta dos Dândis”, eu estava numa rádio e o cara disse: “Pô, estava tocando muito aqui uma canção chamada ‘Refrão de Bolero’, mas eu tive que tirar da programação”, “Pô, mas por quê?”, “Pessoal da gravadora pediu para tirar”. Você vê que raciocínio estranho, de tocar só uma música, mas o ambiente era assim, né? Então sempre que as pessoas ficam reclamando, principalmente esse pessoal da minha geração, que é muito reclamão, “Ah, hoje em dia tudo é mais difícil, o pessoal não presta atenção”, eu tento chamar a atenção pra lados positivos como esse. Quer dizer, hoje em dia não tem essa coisa tão bitolada de uma música. O “Insular” saiu, e eu toco oito canções novas no show sem que isso cause aquele estranhamento de trabalho novo, ao natural, que é como me interessa fazer. E eu me lembro da dificuldade que era fazer isso nos anos 90, por exemplo. Até no “Novos Horizontes” (2007), que foi o último disco do Engenheiros, tocar oito músicas novas era meio assim: “Pô, parece que o cara tá fazendo um manifesto”. E não, manifesto não me interessa fazer, eu gosto de tocar elas ao natural. E nesse sentido acho essas possibilidades muito interessantes. Se eu viesse dar uma entrevista aqui em 1990, você não saberia que eu toquei “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir” em BH, entende? E isso é fascinante, a gente tem que aproveitar isso em vez de ficar reclamando. Hoje em dia dá para chegar mais perto do público, de uma maneira mais rápida, e me sinto muito mais vivo hoje, lançando o “Insular”, do que me sentia lançando discos que fizeram muito sucesso, tocaram muito, venderam muito, mas que, logo depois que tu lançava, tu estava naquela alegria, a fim de mostrar tudo, mas tu entrava meio que num trem muito lento, de tocar uma música, de tocar outra, e hoje em dia a gente pode ser mais ágil nesse sentido.
Você acha que sente mais prazer no palco hoje do que sentia 15 ou 20 anos atrás?
No palco, não. Estou vivendo um momento especial no palco, mas acho que por conta dos últimos quatro anos, que fiquei muito restringido ao formato do poucavogal, que era um duo acústico, eu tocava muitas coisas ao mesmo tempo, teclado com os pés, violão, e agora (na turnê do “Insular”) voltar ao baixo e ao microfone é como voltar para casa. Mas acho que é uma coisa só dessa transição. No palco em si eu sempre senti uma coisa bacana, mas, em relação à maneira como eu posso divulgar meu trabalho, acho uma coisa muito mais legal. Putz, eu não trocaria hoje em dia por nenhum momento da minha carreira. Falo que as pessoas estão interessadas, e não precisa mais passar pelo filtro da grande mídia. Antigamente tu falava para dois jornais e falava para o Brasil inteiro, mas ao mesmo tempo tu ficava escravo de uma visão de dois caras, que às vezes poderiam gostar do teu trabalho, às vezes não, e era um saco,. Hoje em dia é mais legal para quem tem trabalhos como eu, que não se pretendem hegemônicos. Não quero que meu trabalho domine o mundo, nunca quis ser número 1 de nada. Vejo um renascimento da música instrumental, músicas mais específicas, que tinham muita dificuldade de entrar num mundo mais monolítico, para esse tipo de arte o cenário hoje é muito mais interessante.
E teremos um novo disco do Engenheiros do Hawaii?
Não sei, cara. Minha visão de futuro e meio assim, curta, dois, três anos, e agora eu quero dedicar muito tempo ao “Insular”, porque acho que consegui neste disco uma coisa que eu não sei se vou conseguir de novo, especialmente na produção, nas gravações com os caras com quem toquei, a turnê também está muito bacana. Quero viver esse momento com intensidade, lançar um registro audiovisual, um DVD, e depois não sei o que vou fazer. E a escolha de lançar como disco solo não foi um lance premeditado. Comecei a trabalhar no disco sem saber pra onde as músicas iriam, não sabia se seria Engenheiros, se seria mais um disco do poucavogal, e só resolvi lançar como solo porque não teve uma banda fixa me acompanhando no disco inteiro. No Engenheiros, por mais que tenha tido várias mudanças de formação, sempre gravei com o pessoal que ia para a estrada, fazia questão de compor algumas músicas com eles, e agora achei mais natural fazer solo, já que cada faixa, praticamente, tem uma formação, muitos convidados, muitos amigos. Então, não tem nenhum plano, nenhum objetivo de voltar – e isso não quer dizer que não possa voltar.
Até porque, na verdade, a gente consegue enxergar um eixo na sua obra, você pega uma música sua e ela tem uma identidade, seja como Engenheiros da fase clássica ou mais recente, seja como Gessinger Trio ou solo…
Nunca me preocupei com essa coisa de buscar unidade na minha obra, mas eu sabia que a própria composição, pelas suas virtudes e seus defeitos, e eu como intérprete, pelas minhas virtudes e meus defeitos, acabam dando unidade à obra. Então fico mais atento às pequenas mudanças, de formação, de ambiente, mas são mudanças periféricas. Eu acho que concordo contigo, que o centro da minha composição não tenha mudado muito, não, tem assim uma cara, uma coisa própria.
- Fernando Cesarotti (@cesarotti) é jornalista e assina o blog Notas de Viagem


DJ e produtora catarinense Blancah participa de tributo aos 30 anos do Engenheiros do Hawaii

Ao lado de artistas de várias gerações da música brasileira, ela recriou a faixa "Quartos de Hotel" com batidas de trip hop. Blancah apresenta sua música junto com nomes como Leoni e A Banda Mais Bonita da Cidade.

Responsáveis por alguns dos mais emblemáticos hits do rock nacional desde a década de 1980, a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii completa três décadas de estrada em janeiro de 2015, e para comemorar a data, um grupo de louváveis artistas de várias gerações da música brasileira foi convidado a recriar algumas de suas canções mais marcantes. O resultado chega ao público dia 11 de novembro no tributo “Espelho Retrovisor”, que ao lado de versões feitas por nomes como Leoni, Philip Long, A Banda Mais Bonita da Cidade, Forfun e Bebeto Alves, traz também a DJ e produtora catarinense Blancah, que dá uma cara totalmente nova à música “Quartos de Hotel”.
A iniciativa do tributo é do site Scream & Yell, que neste ano já lançou também uma coletânea de versões de músicas de Belchior, e conta com produção executiva e curadoria do jornalista e produtor cultural mineiro Anderson Fonseca. “Fiquei honrada com o convite, pois os Engenheiros do Hawaii foram pilares importantes na minha formação musical. Foi inspirada na banda que comecei a tocar e a compor minhas primeiras músicas ainda na pré-adolescência, e além de tudo eu era apaixonada pelo Humberto Gessinger”, revela Blancah.
Há pouco mais de um ano a DJ ainda era conhecida no cenário eletrônico nacional como Paty Laus, uma das pioneiras do gênero em Florianópolis. Desde que decidiu abandonar as pistas da moda e os hits chicletes e se autodenominar Blancah, ela mergulhou em um projeto menos comercial e mais autoral e apostou em influências sofisticadas do trip hop e nos vocais próprios em inglês e português. O resultado foi, entre outras láureas, o reconhecimento internacional, com direito a EP lançado por uma gravadora alemã, e agora o convite para integrar o tributo aos Engenheiros do Hawaii, sendo a única catarinense entre os artistas selecionados.
Ao se de dedicar a recriar a música “Quartos de Hotel”, de autoria de Gessinger e gravada originalmente em 1991 para o disco “Várias Variáveis”, Blancah mostrou versatilidade ao substituir os habituais beats de suas produções para a pista de dança pelo ritmo mais lento e soturno do trip hop. “Me tranquei por três dias dentro do meu estúdio. Meu desafio era o de não fazer um cover, e sim recriar uma musica que tivesse potencial de assumir uma vida própria”, conta.



                  





[FICHA TÉCNICA]
Produção e Curadoria | Anderson Fonseca
Divulgação | Marcelo Costa (Scream & Yell)
Projeto Gráfico | Luis Saguar e Melissa Mattos
Website | Melissa Mattos

[AGRADECIMENTOS]
Marcelo Costa, Rodrigo Brasil, Barral Lima, Eduardo Rodrigues e Marcelo Monteiro (Amplificador – Globo Online), 
Flávia Camargo, Gigi Favacho, Gustavo Brigatti (Zero Hora), Henrique Soares, Jocelito “Bola” Camargo, Juliete lunkes (Notícias do Dia),
 Luis Saguar, Márcio Figueiredo, Maíra Vianna, Marcos Sketch, Melissa Mattos, Miche Rocha, Pedro Antunes (Rolling Stone),
 Robert Regonati, Rodrigo “Rom” Motta, Tainan Franco, Terence Machado e Sabrina Damasceno (Programa Alto Falante) e Tonho Meira.Este álbum é dedicado a Humberto Gessinger, Augusto Licks, Carlos Maltz, Marcelo Pitz, Ricardo Horn, Fernando Deluqui, Paolo Casarin, Adal Fonseca, Luciano Granja, Lúcio Dorfman, Gláucio Ayala, Paulinho Galvão, Bernardo Fonseca, Fernando Aranha, Pedro Augusto e aos De Fé.




Humberto Gessinger ao vivo em SP

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Texto e vídeos por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari
30 anos se passaram desde que Humberto Gessinger formou os Engenheiros do Hawaii, e desde sempre (mais propriamente a partir do segundo disco da banda, “A Revolta dos Dandis”, de 1987), o mundo se divide em quem acredita que Humberto Gessinger é gênio e naqueles que veem no gaúcho uma das piores coisas surgidas na música brasileira em todos os tempos. Contaminados pela paixão (tanto de amor quanto de ódio), os dois lados estão errados, e a primeira turnê solo de Humberto em 30 anos serve como um ótimo trampolim para analisar uma carreira que, a margem da derrocada da indústria, segue firme e com fãs fieis.
Divulgando “Insular”, seu primeiro disco totalmente solo (o projeto Humberto Gessinger Trio, que lançou um álbum em 1996, foi praticamente um embrião da segunda formação dos Engenheiros, que, desde sempre, teve em Humberto seu líder e porta-voz, mas as coisas agora são diferentes), Humberto Gessinger voltou a São Paulo para romper três anos de silêncio com a cidade (seu último show na capital havia sido em 2011 com o projeto Pouca Vogal) que o recebeu, 28 anos atrás, para três shows minúsculos no Rose Bombom, o terceiro deles neste mesmo 21 de março. Humberto relembra em seu blog oficial:
“Em São Paulo, não éramos ninguém. Nossa história ainda estava por ser escrita. Tive este insight em meio ao primeiro show na Paulicéia desvairada. Não dava pra chamar aquela dúzia de pessoas, por mais animada que estivesse, de São Paulo. Então me limitei a um genérico “valeu, rapaziada!”. (Marcelo) Pitz, grande baixista e figura dulcíssima, deve ter pensado que fora esquecimento meu, chegou ao microfone e tascou: “obrigado, São Paulo!”. Achei engraçado. Hoje, penso que ambos estávamos certos. Era e não era a cidade. Essa São Paulo são tantas cidades…”
De uma dúzia de pessoas em 1986 para cerca de 3 mil e 500 pessoas em 2014, muita coisa aconteceu na carreira de Humberto Gessinger durante esse espaço de tempo, e boa parte dessas histórias surgem estampadas em camisetas variadas (a lojinha caprichada irá abastecer a mitologia nos shows seguintes), que relembram discos e turnês dos Engenheiros numa plateia que traz desde fãs grisalhos (será que algum daquele show do Rose Bombom? Quem sabe) até adolescentes que devem ter descoberto os Engenheiros fuçando os discos do pais ou através do Pouca Vogal.
Acompanhado de Rafael Bisogno na bateria e (o ex-Fresno e atual Esteban) Rodrigo Tavares na guitarra, Humberto entra de baixo em punho apresentando “Sampa no Walkman” (1991), fidelíssima à versão original, e emenda com o primeiro número do disco novo, “Tudo Está Parado”, uma das canções mais cantadas pelo público na noite (outras cinco canções do novo álbum iriam entrar no set list da noite), o que por si só já permite discussões sobre quantos artistas do século passado conseguem agradar seu público ao juntar material novo e antigo, ambos esperados com a mesma atenção pela audiência.
“Toda Forma de Poder” (1986) surge em arranjo cadenciado valorizando a grande letra de Humberto. “Até o Fim” (2003), um dos mantras da carreira do gaúcho, vem na sequencia e já começa a deixar a plateia rouca, que grita a letra: “Não vim até aqui pra desistir agora / Entendo você se você quiser ir embora”. Seguem-se “Armas Químicas e Poemas” (2004), a bonita “Pose” (1992) e a nova “Bora” (2013), com Humberto aliterando “bora/boreal”. A primeira parte da noite resvala em um rock direto, sujo e quase punk, depois se transforma em um classic rock típico de FM, com solos de guitarra encharcados de delay.
“Surfando Karmas e DNA” (2002) e “Eu Que Não Amo Você” (1999), ao lado da nova “Tchau Radar” (2013) rendem o momento mais datado da noite, sonoramente. O público embarca cantando as letras e fechando os olhos durante os solos sonolentos de Tavares, “viajando” no tempo. O show volta a criar ritmo com uma versão fidelíssima de “Ando Só” (1991) e, principalmente, com a ótima “A Revolta dos Dandis” (1987). Inaugurando a terceira parte do show, repleto de baladas, surge em arranjo quase folk “A Ponte Para o Dia”, detentora do prêmio “Parabólica” de pior letra do disco novo pelo refrão “Atravessar a travessia”.
De acordeom em punho, Humberto declama a bonita “Somos Quem Podemos Ser” (de 1986, com Tavares cantando o segundo trecho e, oportunamente, atualizando a segunda parte da letra para “garotos não sabem mais português”) e emenda com uma de suas mais sinceras baladas, “De Fé” (1996). Segue-se o hino “Terra de Gigantes” (de 1987, ainda no formato acordeom) até que Humberto se dirige ao piano para o segundo bloco de baladas, aberto com “Piano Bar” (1991) e seguida por “3×4” (1999), “Tchau Radar” (2013) e “Pra Ser Sincero” (1990). O show termina com “Exercito de Um Homem Só” (1990).
O trio volta ao palco com uma das canções mais queridas pelos fãs, “Dom Quixote” (2003), e emenda “Refrão de Bolero” (1987). Nova pausa, e o segundo bis é aberto com a canção que, talvez, melhor resuma o letrista Humberto Gessinger: “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir”, fiel ao arranjo Rush do disco “O Papa é Pop” (1990), dispara frases certeiras contra a violência do capitalismo (que separa o povo conforme o dinheiro que ele possui) ao mesmo tempo em que escorrega para imagens piegas (“Um cheque sem fundo no fundo do coração?”). Para fechar o show, “Infinita Highway” (1987), com o baterista Gláucio Ayala, da última formação dos Engenheiros, entrando em cena e descendo a porrada no kit.
25 músicas depois, a sensação é de que esta turnê “Insular” é uma das melhores de Humberto Gessinger em muito tempo. O trio está afiado e a boa seleção de repertório valoriza uma carreira solitária, criada a margem do chá dos cinco do rock nacional (é emblemático que este mesmo Citibank Hall verá, em abril, um show conjunto de Biquini Cavadão, RPM e Titãs), e que alterna bons momentos (principalmente quando Humberto exibe seu lado gauchesco) com passagens piegas (os solos de guitarra, a estética datada setentista) de um compositor que ousa errar vergonhosamente e acertar genialmente, muitas vezes numa mesma letra/canção.
Cada pessoa pode até escolher um lado, e isso dirá mais sobre ela do que, necessariamente, sobre Humberto Gessinger, um grande artista com uma carreira admirável marcada por erros e acertos, e que, em meio a um cenário musical vilanizado pela estupidez do capitalismo cego da direção das grandes gravadoras, criou o seu próprio universo, e mantém um grupo fiel de fãs, que acompanha seus passos, compra seus discos, veste suas camisetas e leva pra casa a caneca (de chimarrão) que ele exibe várias vezes durante a noite, e também está à venda na lojinha. Sem se vender ao sistema, Humberto Gessinger segue em frente. Dignamente.
- Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne


Publicado em 29/08/2014
Show quase na íntegra de Humberto Gessinger na turnê Insular em Porto Alegre dia 28/08/2014.
Falta apenas a "chamada" de bateria de "Eu que não amo você" e o dedilhado inicial do baixo de "Exército de um homem só". O resto está completo!